FactCheck BNLData: pesquisa que liga apostas a “vício” tem metodologia frágil e ignora dados oficiais do setor

Apostas I 08.09.26

Por: Magno José

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BNLData aponta erros em comparação de perdas de apostas e isenção de IR
Antes de repetir que “mais da metade dos apostadores atrasa contas por vício”, vale checar a metodologia por trás do número — e comparar com os dados oficiais do mercado regulado

A pesquisa Pulso | Apostas 2026, encomendada ao instituto Hibou e distribuída à imprensa em setembro, ganhou manchetes fortes: mais da metade dos apostadores já atrasou uma conta “para bancar o vício” e 8 em cada 10 brasileiros acreditam que apostas podem viciar. Os números são reais, mas a forma como foram coletados e, principalmente, como foram costurados na narrativa de divulgação merece um exame mais cuidadoso antes de virarem verdade estabelecida sobre o comportamento do apostador brasileiro. O acesso à ficha técnica completa — não apenas ao release distribuído à imprensa — revela ainda um recorte por gênero que muda parte da leitura do estudo, como mostramos abaixo.

Painel digital não é amostra probabilística — e a margem de erro citada não vale para isso

O release informa que o levantamento foi feito “por meio de painel digital”, com mais de 2.400 respondentes autodeclarados das classes ABCD. Painéis digitais são compostos por voluntários cadastrados que respondem pesquisas em troca de pontos ou recompensas — um método de amostragem não probabilística, sujeito a autosseleção (pessoas mais engajadas digitalmente, mais dispostas a falar de dinheiro e apostas, tendem a se autosselecionar). A margem de erro de 1,9 ponto percentual citada na metodologia pressupõe amostragem aleatória simples de uma população definida, o que não é o caso de um painel de voluntários. Atribuir uma margem de erro estatística formal a esse tipo de coleta empresta um verniz de precisão científica que o método não sustenta.

Universo que já exclui a camada mais vulnerável da população

A amostra cobre apenas classes ABCD, maiores de 18 anos — ou seja, a classe E, tradicionalmente a mais exposta a choques de renda e inadimplência, fica de fora. Isso é relevante porque o release usa o comprometimento financeiro dos entrevistados como argumento central, mas parte justamente da fatia da população com renda relativamente mais estruturada.

A subamostra de apostadores é pequena demais para sustentar os números mais alarmantes

Os índices mais citados pela imprensa — os 53% que atrasaram conta, os 59% que cortaram compras de casa — não se referem ao total de 2.470 entrevistados, mas apenas aos 38% que se declararam apostadores, ou seja, a uma base de aproximadamente 930 a 940 pessoas. Uma subamostra desse tamanho tem margem de erro real bem maior do que os 1,9 ponto percentual anunciado para o total da pesquisa — algo na casa de 3 pontos percentuais ou mais, a depender do desenho amostral exato, que o material divulgado não detalha.

Atraso de conta não é sinônimo de vício — e a pesquisa não isola essa causalidade

O título do release afirma que os apostadores atrasam contas “para bancar o vício”. Mas a pergunta feita, pelo que o material descreve, foi sobre ter deixado de pagar uma conta “para poder apostar” — uma constatação comportamental, não um diagnóstico. Nenhum instrumento clínico de dependência foi aplicado. Tratar esse dado como prova de “vício” é uma inferência da divulgação, não um resultado do questionário.

Mais grave: o Brasil vive um cenário de inadimplência recorde que não tem relação direta com apostas. Segundo levantamento da Serasa divulgado em 2026, o país chegou a 81,7 milhões de brasileiros inadimplentes, alta de 38,1% em dez anos — um problema que a própria empresa atribui a fatores estruturais, como juros elevados, pressão inflacionária e uso do crédito sem planejamento, e não a hábitos de consumo específicos como as apostas. Sem comparar apostadores com não apostadores de perfil socioeconômico semelhante, é impossível saber quanto do atraso de contas relatado decorre das apostas e quanto reflete esse quadro geral de endividamento das famílias brasileiras — que atinge dezenas de milhões de pessoas que nunca fizeram uma aposta na vida.

A pesquisa contradiz a si mesma sobre a gravidade do problema

O próprio levantamento mostra que apenas 15% dos apostadores relatam ter sentido as apostas “saindo do controle” (6% com frequência, 9% às vezes), enquanto 56% dizem nunca ter sentido esse impacto. Isso está longe de sustentar uma narrativa de epidemia de vício generalizado — na verdade, reforça que a experiência majoritária é de lazer sob controle, o que também aparece nas motivações declaradas: entretenimento (42%) e diversão social aparecem lado a lado com o interesse financeiro (47%), e apenas uma minoria residual associa bônus e promoções das casas à sua decisão de apostar.

O recorte por gênero mostra que o “problema” está concentrado nos homens

A ficha técnica completa da pesquisa traz uma quebra por gênero que não apareceu na divulgação à imprensa — e ela muda a leitura do estudo de forma relevante. Enquanto 38% do total declaram apostar, entre os homens esse porcentual sobe para 54%. Supondo uma divisão aproximadamente equilibrada da amostra entre homens e mulheres, isso implica uma taxa de adesão feminina bem mais baixa, algo próximo de 20%-22% — menos da metade da masculina. O “apostador brasileiro” que a pesquisa retrata é, na prática, um perfil fortemente concentrado no público masculino.

O mesmo padrão se repete, de forma ainda mais nítida, nos indicadores mais graves do estudo: 30% dos homens apostam “algumas vezes por semana”, contra 11% no total; 57% dos homens relatam ter reduzido compras de casa “algumas vezes” por causa das apostas, contra 45% no total. E, no dado mais revelador, apenas 40% dos homens dizem “nunca” ter sentido as apostas saindo de controle, contra 56% no total — o que, pela mesma lógica de proporção, sugere que entre as mulheres esse porcentual de “nunca” fica bem acima de 80%. Em outras palavras: o comprometimento financeiro e a perda de controle que a manchete generaliza para “os apostadores” descrevem, majoritariamente, uma experiência masculina, diluída na leitura agregada do “geral”.

Vale registrar também uma inconsistência na ficha técnica: na pergunta sobre o principal fator de escolha da casa de apostas, “reputação da casa / confiança na plataforma” aparece com 44% no total e 98% entre os homens — um salto que destoa da variação das demais linhas da mesma tabela (que sobem, no máximo, cerca de 1,5 vez o valor do total). É provável que se trate de um erro de transcrição no material, mas é o tipo de detalhe que reforça a necessidade de cautela antes de tratar qualquer número dessa pesquisa como definitivo.

Os 38% de “apostadores” não conversam com os dados oficiais do setor regulado

A pesquisa não distingue apostas em plataformas regularizadas de apostas informais, com amigos, bolões ou sites clandestinos — todas parecem entrar no mesmo balaio de “apostar em bets”. Isso já explica parte da distância entre o número declarado (38% da população) e os dados oficiais do mercado licenciado. Segundo relatório da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, o mercado regulado registrou 15.186.243 CPFs únicos com pelo menos uma aposta no primeiro trimestre de 2026, e a base de cadastros ativos, somando toda a história do mercado, chegou a 30,9 milhões de CPFs únicos no primeiro semestre de 2026 — patamar bem inferior aos quase 80 milhões de adultos que os 38% da pesquisa sugeririam. A diferença não invalida a pesquisa por si só, mas mostra que ela está medindo uma percepção ampla e pouco qualificada de “apostar”, não necessariamente o comportamento no mercado regulado que é o alvo de boa parte do debate público.

Causalidade também pode andar na direção contrária

A pesquisa da Hibou trata o vínculo entre apostas e comprometimento financeiro como uma via de mão única: a pessoa aposta, perde o controle, atrasa contas. Mas há evidência de que o caminho inverso também ocorre com frequência relevante — parte de quem já está endividada recorre às bets tentando reverter a própria situação, não o contrário. Um levantamento da Serasa de novembro de 2024 mostrou que 44% dos entrevistados endividados afirmaram já ter apostado em bets na tentativa de quitar dívidas, motivados sobretudo pela busca de dinheiro rápido ou de uma renda extra. Isso não anula o achado da Hibou sobre apostadores que se endividam apostando, mas mostra que a fotografia é mais complexa do que a manchete sugere: para uma fatia expressiva do público endividado, a aposta é sintoma de uma dificuldade financeira preexistente, não a causa original dela — o que reforça, mais uma vez, a necessidade de um grupo de comparação que a pesquisa não tem.

Baixa adesão ao Desenrola não é prova de ausência de endividamento — em nenhuma direção

Outro dado que circula no debate sobre apostas e endividamento merece o mesmo escrutínio, para não virar munição fácil em nenhum dos dois sentidos: das cerca de 30 milhões de contas de apostadores cadastradas no mercado regulado, 800 mil foram bloqueadas após adesão ao programa Desenrola 2.0, que impede quem renegocia dívidas de acessar plataformas de apostas por 12 meses. Isso equivale a 2,6% do total de apostadores — um número baixo, que tem sido usado para argumentar que a imensa maioria dos apostadores não estaria endividada. O problema é que essa conclusão extrapola o que o dado realmente mostra: o Novo Desenrola 2.0 tem elegibilidade restrita (renda de até cinco salários mínimos, apenas dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal contraídas até janeiro de 2026, em atraso entre 91 dias e 2 anos) e exige adesão ativa via banco. Não se enquadrar nesses critérios, ou simplesmente não ter buscado o programa, não equivale a não estar endividado — o Brasil soma 81,7 milhões de inadimplentes segundo a Serasa, um universo muito maior do que o público que qualquer edição do Desenrola já atendeu. O dado do Desenrola é útil para relativizar a tese de que as bets seriam a principal causa do endividamento nacional — 2,6% é, de fato, uma fração pequena diante da escala do problema —, mas não serve como prova estatística de que os apostadores, em geral, estão livres de dívidas.

Falta transparência sobre quem encomendou e financiou o estudo

O material de divulgação não informa se a pesquisa foi uma iniciativa espontânea da Hibou para posicionamento de mercado ou se foi encomendada por terceiros — órgão público, entidade do setor financeiro, organização de combate ao jogo ou veículo de imprensa. Diferentemente de pesquisas eleitorais, não há obrigação legal de registro público para esse tipo de levantamento de opinião sobre consumo, mas a ausência dessa informação básica dificulta avaliar possíveis interesses por trás da escolha dos temas e do enquadramento das perguntas.

Narrativa distorcida

Os dados brutos da pesquisa Hibou — parte deles, ao menos — não são inverossímeis: é plausível que uma fatia de apostadores comprometa parte do orçamento doméstico, como ocorre com outras formas de consumo e crédito no Brasil. O problema está na embalagem: uma pesquisa com amostra não probabilística, subamostras pequenas, ausência de grupo de comparação e nenhuma medida clínica de dependência é apresentada como prova de que apostas esportivas geram “vício” em massa — quando os próprios números internos do estudo (56% nunca sentiram perda de controle; motivação dominante é lazer), a concentração dos indicadores mais graves no público masculino, a evidência de causalidade em ambos os sentidos e a baixa adesão de apostadores a programas de renegociação de dívidas contam uma história mais moderada e mais específica do que a manchete sugere. Antes de reproduzir a manchete, vale a pena olhar para a ficha técnica completa — e aplicar o mesmo padrão de rigor a qualquer número, venha de onde vier, que tente fechar essa discussão de um lado só.


Confira a pesquisa Pulso | Apostas agosto 2026


 

Apostadores no Brasil atrasam contas e cortam gastos para manter bets

 

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