Futebol e dinheiro nunca estiveram tão íntima e promiscuamente emaranhados

Opinião I 18.05.22

Por: Magno José

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Milly Lacombe*

Escutando as narrações dos jogos da Copa do Brasil um tema me pareceu se destacar de qualquer outro: a ênfase dada aos valores que cada clube ganha ao passar de fase. A informação é oferecida a todo o instante durante as partidas. “Quem vencer ganha tantos milhões”, “quem vencer vai receber o PIX da CBF ainda hoje”, “vencendo tem PIX da CBF”… Não há como deixar de ser impactado pelos valores. Narradores, comentaristas, repórteres – todos repetem a informação.

De imediato não pude entender o que me incomodava na repetição sem fim. Mas, aos poucos, compreendi que nunca antes tinha notado essa aproximação tão direta e farta entre vencer e ganhar dinheiro no futebol.

Sempre torci para que meu time vencesse sem pensar em quanto ele embolsaria. Não me parece saudável essa associação ser feita de forma tão dura, direta, inescapável. Estamos formando que tipo de torcedores?

É justo ficar repetindo a todo o instante os grandes valores do futebol masculino sem sequer apontar os valores do feminino? Eu diria que não. Se querem falar de valores, por que não ajudar o futebol feminino a se impor e enfatizar a diferença de premiação?

Futebol e dinheiro nunca estiveram tão íntima e promiscuamente emaranhados. As casas de apostas agora fazem parte do jogo. E não envolve apenas o resultado em si: envolve número de escanteios, laterais, passes para gol. O que isso diz sobre as maneiras pelas quais nos aproximamos de um jogo? Que afetos estamos mobilizando?

Sou filha de um pai viciado em jogos de azar. Posso garantir que nada bom vem desse vício. Nunca se ganha. Nunca, jamais. Sempre se perde. Perde-se dinheiro, relacionamento, tempo, vida.

A tentativa de vender a experiência de uma aposta como diversão é perversa e deveria ser proibida se houvesse alguma instituição interessada em regular esse relacionamento e a publicidade que é feita hoje.

Futebol é paixão que deveria, na medida do possível, evitar essas misturas. Como torcerão as futuras gerações? Pelo quê? Em nome do quê? Vai ser possível torcer sem apostar ou sem comemorar quanto seu time ganhou com a vitória? Torcer passará a ser apostar e não se falará mais sobre o assunto?

É lamentável sob muitos aspectos. Não deveríamos gastar parte das narrações falando em PIX, em grana, em quanto cada time vai levar para casa se vencer. Não se trata de vencer para ganhar dinheiro. Não deveria, pelo menos. É pela grana que jogamos, torcemos, nos envolvemos a esse esporte?

Dinheiro é importante, não há como a gente viver nessa sociedade sem encontrar um jeito de ganhar algum, os times certamente precisam de dinheiro, os pequenos mais ainda. Tudo inquestionável até aí. O que questiono é a repetição sem fim dessa associação e a falta de debate sobre a relação perigosa entre casas de apostas e futebol.

Sabemos que, se não prestarmos atenção, os interesses do Capital dominarão tudo. É uma luta ingrata essa de resistir ao que parece indominável. Vamos realizar uma Copa do Mundo dentro de uma ditadura e pouco se fala a respeito. Times como o City, movido pelo dinheiro de uma ditadura que devasta o planeta para acumular grana e poder, podem comprar quem quiserem quando quiserem como quiserem e não falamos sobre isso – apenas aceitamos como natural.

A ideia de que “quem é rico assim é porque merece” forma a base de nossas estruturas psíquicas. O capitalismo não é apenas um sistema econômico, ele é formador de sujeitos e personalidades. Acreditar nessa ficção de meritocracia ajuda a manter o sistema do jeito que está.

É uma luta ingrata, mas ela é necessária. Toda luta contra o totalitarismo é necessária. Não lutamos para vencer porque, se pensarmos no que teremos que enfrentar, paramos de lutar. Lutamos porque é a coisa certa a se fazer.

(*) Milly Lacombe é colunista do UOL e veiculou o artigo acima no UOL Esportes.

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