Jogo de probabilidades

Loteria I 26.12.17

Por: sync

Compartilhe:

A segunda quinzena de dezembro é marcada por dias que parecem mais curtos do que o normal. Na agenda apertada, estão as confraternizações de fim de ano, as compras para o Natal, a programação para o Réveillon e, para muita gente, a aposta na Mega Sena da Virada. Para este ano, o prêmio principal estimado é de R$ 220 milhões.
As cifras enchem os olhos de qualquer pessoa, mas será mesmo que vale a pena levar esse sonho de ganhar o prêmio tão a sério? A probabilidade de ser o grande sorteado ou sorteada é extremamente baixa: uma em 50 milhões.
Para se ter uma ideia mais clara do que isso representa, vale fazer algumas comparações com probabilidades curiosas. É muito mais fácil, por exemplo, morrer atingido por um raio (uma chance em 80 mil) do que ganhar na Mega da Virada. Também é mais fácil perder a vida ao ser atingido por um asteroide (uma chance em 500 mil) do que levar a bolada de fim de ano, de acordo com o “Guia dos curiosos”.

Talvez você não imaginasse que as chances seriam tão pequenas, mas com certeza já sabia que ganhar na loteria não é algo fácil de acontecer. Por que tantas pessoas seguem à risca a tradição de apostar nesta época do ano?

Um dos fatores é o poder da pressão alheia em nossos comportamentos. O ser humano, por mais que goste de acreditar que é diferente e único, age copiando os outros com muito mais frequência do que gostaria.

Quando seus amigos de trabalho resolvem fazer um bolão de fim de ano, você entra não porque tenha grandes esperanças de ganhar o prêmio, mas sim por não querer sentir-se excluído caso o grupo ganhe. Sempre quando acontece um bolão no trabalho — em situações de aposta sobre placares de jogo, por exemplo — alguém acaba levando a melhor, e você sente um aperto no peito se fica de fora. Na situação da loteria, isso se agrava. Imagina o peso de lidar com a ideia de seus amigos acertarem os números e você ser a única pessoa que não entrou no bolão? Partindo desse princípio, você ignora qualquer evidência probabilística e trata de se livrar do desconforto de ficar de fora.

A conformidade social é um fenômeno tão forte que o psicólogo Solomon Asch ganhou notoriedade ao fazer um experimento social em que as pessoas entravam em um elevador e se deparavam com um grupo todo virado de costas para a porta. Por mais que o comportamento não parecesse fazer sentido algum, elas acabavam assumindo a mesma posição, simplesmente para evitar o desconforto de serem as únicas a permanecer de frente para a porta.

Temos uma tendência a ignorar as evidências estatísticas e a supervalorizar histórias inspiradoras. O escritor Nassim Taleb dá a isso o termo de “Cemitério dos fracassados”: as pessoas tendem a manter o foco no caso de sucesso de alguém, mas ignoram que existem diversas outras pessoas com as mesmas características e que não tiveram o mesmo sucesso.

Não interessa o mar de apostas feitas para a Mega da Virada, o inconsciente ainda está focado naquela história de alguém que morava em uma cidade pobre, pouco conhecida e que acabou se tornando milionário do dia para a noite. Além disso, todo mundo fantasia sobre o que faria com tanto dinheiro: se imagina em uma mansão, com um carro de luxo na garagem, muitas viagens e uma vida de mordomias. Como a brincadeira é barata, já que o bilhete custa R$ 3,50, todo mundo acaba se deixando levar pela onda.
(*) Samy Dana é economista e professor da FGV e veiculou o artigo acima no O Globo desta segunda-feira(25) – Fonte: "Guia dos curiosos".


Compartilhe: