Jogo do Bicho completa 130 anos de criação

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A petição do Barão de Drummond foi aceita em 13 de outubro de 1890

 

Neste segunda-feira, dia 13 de outubro, o jogo do bicho comemora 130 anos de criação. A modalidade, ao contrário do que muitos afirmam, não foi criada pelo Barão de Drummond, mas sim pelo mexicano Manuel Ismael Zevada.

Nos tempos da Monarquia o Barão de Drummond, eminência política do Império e amigo da família real, era fundador e proprietário do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro – que então funcionava em Vila Isabel. A manutenção do zoológico era patrocinada com uma generosa subvenção mensal do governo para alimentar toda a fauna.

Com a proclamação da República em 1989, o velho Barão perdeu o prestígio e o patrocínio. Sem o auxílio do governo, o Barão chegou a cogitar fechar em definitivo o zoológico do Rio. Mas a solução veio através do mexicano, Manuel Ismael Zevada, que era fã do zoológico e sugeriu a adaptação da Loteria das Flores para a Loteria dos Bichos, que permitisse a manutenção do estabelecimento. Zevada bancava por conta própria um tal Jogo das Flores na Rua do Ouvidor, no qual cada uma das flores recebia um número de acordo com uma tabela.

Sobre a preferência pelos bichos, o Barão disse na época ao Diário do Commércio: “Flores são lindas. Mas animais são subúrbios do homem, nossos parentes”.

Barão de Drummond ficou entusiasmado com a ideia e encaminhou uma petição ao Conselho de Intendência Municipal solicitando que fossem permitidos alguns jogos mediantes pequena contribuição, uma vez que só assim seria possível manter o zoológico, um local tão querido e importante para a cidade.

A petição foi aceita em 13 de outubro de 1890, assinou-se o termo aditivo ao contrato de criação do Jardim Zoológico de Vila Isabel. Assim, oficialmente, nessa data foi criado o jogo do bicho no Brasil.

O mexicano Zevada foi nomeado o primeiro gerente da operação, que teve a sua primeira extração oficial realizada no dia 4 de julho de 1892.

O frequentador que comprasse um ingresso de mil réis ganharia vinte mil réis se o animal desenhado no bilhete de entrada fosse o mesmo que seria exibido em um quadro horas depois. O Barão mandou pintar vinte e cinco animais. A cada dia, um quadro subia com a imagem de um bicho. Multidões iam ao zoo com a finalidade de comprar os ingressos e aguardar o sorteio do fim de tarde. Em pouco tempo, o jogo do bicho tornou-se um hábito da cidade.

Foi um sucesso, virou mania naquela época. Tinha gente que ia ao zoológico só por causa do prêmio. Os bondes para Vila Isabel, principalmente no domingo, ficavam superlotados.

Com a proibição do jogo em 1895, e a morte do Barão de Drummond em 7 de agosto de 1897, operadores privados não regulados assumem o jogo do bicho e organizam o jogo em armazéns e botequins tornando-se a única maneira dos menos favorecidos, ganhar um dinheirinho extra.

 

Criada originalmente como Jogo das Flores na Rua do Ouvidor, a Loteria de Números foi apresentada ao Barão de Drummond pelo mexicano Manuel Ismael Zevada

 

O crescimento do jogo se deu porque ele é a cara da população mais pobre. Veja bem, o jogo fomenta o imaginário da sorte, a ilusão de que uma hora você ganha “só ganha quem joga”, aquela esperança de pobre de que a vida está aguardando o momento certo para sorrir brilhante e o misticismo de interpretação de sonhos. Isso criou uma ligação muito próxima entre o jogo e a população, essa informalidade, a coisa do apontador, muitas vezes, ser um amigo da vizinhança.

Em 1911, precisamente 16 anos depois de proibido, o jurista e acadêmico José Macedo Soares, observou que o jogo se radicara a tal ponto nos hábitos sociais do brasileiro que era impossível erradicá-lo pela lei e repressão policial. O conceito da manifestação do jurista de 108 anos atrás nunca esteve tão atual.

“O jogo proliferou e criou raízes tão profundas, que não será certamente a golpes de lei ou de arbitrariedades policiais que o poder público poderá extirpá-lo dos nossos costumes”, José Macedo Soares.

No último dia 3 de outubro, o jogo do bicho completou 79 anos de proibição com a edição do Decreto-Lei nº 3.688, de 3 de outubro de 1941 (Lei de Contravenções Penais).

O resto da história, todos sabem…

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