Máfia das apostas: Cinco estados têm investigações em andamento sobre manipulação de jogos

Blog do Editor I 16.06.23

Por: Elaine Silva

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A goleada do Amazonas (de amarelo) sobre o Iranduba (verde) está sendo investigada (Foto: Jadison Sampaio/AMFC)

Em janeiro passado, um grupo de investidores propôs uma parceria a Francisco Ferro, dono do FF Sport, clube de futebol de Pilar, a 35km de Maceió, em Alagoas: a empresa contrataria jogadores para que o time pudesse disputar a Copa de Alagoas, segunda competição local mais importante do estado. Como o clube passava por dificuldades financeiras, Ferro aceitou, e mais de uma dezena de jogadores foram trazidos. A sociedade, no entanto, não completou um mês: em 15 de fevereiro, depois da derrota de 7 a 0 para o Murici, o dono do FF Sport foi do estádio direto para a delegacia denunciar a manipulação do resultado.

— Parecia que eles não queriam vencer. Mais de uma vez, um jogador tentou colocar a mão na bola. Esses empresários não trouxeram um time de futebol, trouxeram uma gangue! — conta Ferro. Um dia depois do jogo, ele rompeu a parceria, demitiu 15 jogadores e toda a comissão técnica.

A partida entre FF Sport e Murici é uma das sete investigadas pela Polícia Civil alagoana, que abriu um inquérito em maio passado para apurar a existência de um esquema de apostas ilegais na competição. Um levantamento do GLOBO revela que as suspeitas de manipulação de resultados no Brasil vão muito além da Operação Penalidade Máxima, que comprovou manipulação até em jogos da Série A do Brasileirão: além de Alagoas, outros quatro estados têm investigações em andamento sobre esquemas de apostas ilegais em competições estaduais. Há casos de partidas sob suspeita com a presença de policiais na arquibancada, um jogador preso sob a acusação de integrar o esquema e até um campeonato sub-20 é alvo de um dos inquéritos.

Em Alagoas, a Divisão Especial de Investigação e Capturas (Deic) abriu a investigação após uma denúncia da federação local: segundo um relatório da empresa suíça especializada em fraudes Sportradar, contratada pelo órgão para monitorar indícios de manipulação, o mercado de apostas apresentou “comportamento anormal” em sete jogos da Copa de Alagoas — uma das partidas foi justamente a goleada sofrida pelo FF Sport. Todas as partidas apresentaram um volume grande de apostas em resultados improváveis, como goleadas para times que haviam feito poucos gols até então.

No Amazonas, outra denúncia parecida motivou a abertura de uma investigação que culminou na prisão de um jogador. Em fevereiro, em jogo válido pelo Amazonense, o Iranduba perdeu de 7 a 0 para o Amazonas — a maioria dos gols teve origem em falhas de jogadores da equipe derrotada. Segundo um relatório da Sportradar, que também tem contrato com a federação amazonense, “apostas irregulares em favor de que o Iranduba perderia a partida por ao menos dois gols emergiram cerca de 30 minutos antes do início da partida”. As casas de apostas perceberam os indícios de fraude e cancelaram os palpites. Os apostadores não desistiram e passaram a apostar que a partida teria ao menos quatro gols marcados. “A forma recente das equipes não fornece embasamento para a confiança massiva por um placar tão elástica”, aponta o relatório, que foi encaminhado ao MP do Amazonas (MPAM).

Mais jogos sob suspeita

Em 14 de maio, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado deflagrou a Operação Handicap. O zagueiro Léo Rito, suspeito de integrar o esquema, foi alvo de um mandado de prisão temporária. Outros nove mandados de busca e apreensão contra jogadores, diretores e integrantes da comissão técnica do Iranduba também foram cumpridos. A investigação segue em andamento, mas o clube foi rebaixado e suspenso de competições esportivas por dois anos pelo Tribunal de Justiça Desportiva do Amazonas.

Uma partida do Campeonato Piauiense teve a presença de policiais à beira do campo: River 4, Comercial 0. O jogo, em 1º de fevereiro, marcou a quinta derrota consecutiva do Comercial no estadual — e a segunda por 4 a 0. A polícia foi acionada pela federação local, que também recebeu alertas da Sportradar sobre apostas suspeitas feitas em jogos da equipe, mais uma a fechar parceria com empresários para conseguir reforçar o time. Após o início da investigação, que ainda está em andamento, a parceria foi rompida.

A derrota de 2 a 0 do Cruzeiro-RS para o Inter, pelo Gauchão sub-20, em maio passado, também foi alvo de uma operação policial por suspeita de manipulação. Agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) estiveram no vestiário da equipe perdedora para entrevistar jogadores e a comissão técnica após receberem uma denúncia de que jogos do time estavam sendo alvo de apostadores. Até ali, o Cruzeiro-RS, que terceirizou suas categorias de base para um grupo de empresários, havia perdido todas as suas partidas na competição — várias delas por uma diferença de mais de três gols.

— Identificamos que grupos de investidores prospectam clubes deficitários visando o mercado de ‘bets’ no RS. E recebemos alertas sobre situações propícias para fraudes no futebol. Um deles aconteceu antes do jogo do Cruzeiro-RS. Por isso, fomos ao estádio para angariar provas e iniciar uma investigação. É muito preocupante que isso esteja acontecendo na época de formação dos atletas — disse o delegado Gabriel Bicca.

Já no Tocantins, a diretoria do Interporto, que acabou rebaixado no estadual, procurou a polícia para denunciar uma tentativa de aliciamento de um atleta do time para manipular o resultado de uma partida da última rodada do campeonato. Segundo o registro de ocorrência, feito na 70ª DP (Porto Nacional) em março, um jogador de uma outra equipe teria oferecido dinheiro para que o goleiro do Interporto sofresse gols e entregasse o jogo contra o União, que aconteceria quatro dias depois. O jogador aliciado se negou a manipular o resultado do jogo e entregou uma cópia da troca de mensagens ao presidente do clube. A investigação ainda não foi concluída. (O Globo)

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