O iGaming entra na era do compliance tecnológico

Durante muitos anos, o mercado global de apostas online cresceu impulsionado, principalmente, por inovação tecnológica, marketing agressivo e expansão internacional acelerada. Mas ao visitar dois dos maiores eventos da indústria realizados neste ano, a ICE Barcelona 2026 (em janeiro) e o SBC Summit Rio 2026, que ocorreu no início de março, foi possível perceber que o setor de iGaming está entrando em uma nova fase, e a palavra que resume esse momento é compliance tecnológico.
O que se vê agora é a transformação da regulação em infraestrutura técnica das plataformas de iGaming, influenciando desde o design dos produtos até o uso de dados, IA e sistemas de pagamento. Essa mudança ocorre justamente no momento em que mercados emergentes, especialmente o Brasil, passam a ocupar papel central na estratégia global da indústria.
Um dos sinais mais claros dessa transformação é o avanço das soluções de “safer gambling”, o chamado jogo responsável. Se antes essa pauta aparecia apenas como compromisso institucional, agora ela passa a ser incorporada diretamente nas plataformas, como uma funcionalidade de produto. Assim, as plataformas começam a ser equipadas com sistemas de IA capazes de identificar padrões de comportamento potencialmente problemáticos, monitorar hábitos de apostas e acionar mecanismos automáticos de proteção ao jogador.
Essa mudança tem implicações jurídicas relevantes, uma vez que operadores passam a ter responsabilidade tecnológica sobre a forma como suas plataformas influenciam o comportamento dos usuários, para além das obrigações regulatórias formais. Em outras palavras, o compliance deixa de ser apenas documental e se transforma em operacional e algorítmico.
Hiperpersonalização, fraudes sofisticadas e novos dilemas regulatórios
Outro tema dominante nos dois eventos foi o uso intensivo de IA aplicada ao marketing e à personalização da experiência do usuário.
Ferramentas de CRM baseadas em dados comportamentais permitem segmentar jogadores com níveis cada vez mais sofisticados de precisão, algo especialmente voltado à chamada geração Z, público que já cresceu imerso em ambientes digitais.
Esse avanço tecnológico, porém, abre novas questões regulatórias. Quanto maior o poder de personalização das plataformas, maior também é o debate sobre uso ético de dados, transparência algorítmica e limites para estímulos ao consumo de apostas. Para países que estão estruturando seus marcos regulatórios, como o Brasil, isso significa que a discussão jurídica não se limitará às licenças de operação, mas envolverá cada vez mais governança de dados e responsabilidade digital das plataformas.
O crescimento das fraudes digitais no setor de apostas é outra preocupação latente do mercado. Entre 2022 e 2024, operadores registraram aumento expressivo de práticas, cada vez mais sofisticadas, como: abuso de bônus promocionais, manipulação de contas, ataques automatizados e uso de identidades falsas e deepfakes.
Isso fez crescer a demanda por infraestruturas de segurança especializadas para iGaming, incluindo certificações técnicas, auditorias independentes e monitoramento contínuo das plataformas. Já do ponto de vista jurídico, esse movimento reforça a tendência de responsabilização crescente dos operadores pela integridade dos sistemas de apostas, aproximando o setor de padrões de governança adotados em mercados financeiros.
E por falar em mercado financeiro, a expansão das empresas de tecnologia financeira dentro do universo das apostas online foi também destaque nos painéis dos eventos. A tendência agora é que os métodos de pagamentos se transformem em um ecossistema cada vez mais integrado com o universo do iGaming. E já é possível notar que gateways de pagamento, soluções de verificação de identidade, sistemas antifraude e ferramentas de open banking estão se tornando parte essencial da infraestrutura das plataformas.
Essa integração reforça um aspecto cada vez mais evidente: o iGaming deixou de ser apenas entretenimento digital e passou a operar na interseção entre regulação financeira, proteção de dados e defesa do consumidor. Isso exige que operadores estejam preparados para navegar simultaneamente em diferentes regimes regulatórios.
Brasil ganha espaço no mapa global do iGaming
Se existe um consenso entre executivos e especialistas que participaram das duas feiras é o de que a América Latina, principalmente o Brasil, mudou de patamar para o setor. Com a regulamentação do mercado brasileiro, o País começou a ser visto como um dos maiores potenciais de crescimento da indústria global de apostas online.
Esse novo protagonismo, no entanto, vem acompanhado de desafios, e, agora, a consolidação do mercado dependerá da capacidade de equilibrar inovação tecnológica, proteção ao consumidor e segurança jurídica para operadores e investidores.
Isso também porque a indústria deixou de ser apenas entretenimento. Os debates apresentados na ICE Barcelona 2026 e no SBC Summit Rio 2026 mostram que o setor de iGaming passa por uma transformação estrutural. E o mercado que antes era definido pela inovação em jogos agora passa a ser moldado por arquiteturas regulatórias cada vez mais complexas.
Nesse novo cenário, vencerão os operadores capazes de combinar três fatores: tecnologia sofisticada, governança de dados e compliance regulatório integrado ao produto. E, em um futuro próximo, o diferencial competitivo no mercado de apostas online talvez não esteja apenas nos jogos oferecidos, mas na capacidade das plataformas de operar com segurança, transparência e responsabilidade em ambientes regulados.
(*) Hélio Ferreira Moraes
Sócio da área Digital do PK Advogados, este profissional traz uma sólida formação em Direito (1995) e Engenharia Eletrônica (1990) pela USP. Sua atuação é reforçada por uma LLM Binacional em LGPD & GDPR, obtida no Brasil e em Portugal. Reconhecido por sua expertise, co-coordena a Comissão de Tecnologia da Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC) e é vice-coordenador do Comitê de Tecnologia e Sociedade do Instituto Brasileiro de Direito e Ética Empresarial (IBDEE). Como autor, publicou “Privacidade e proteção de dados pessoais” (ed. Senac, 2024), livro-texto do curso de especialização em LGPD do SENAC. Sua experiência acadêmica é vasta, atuando como professor no MBA USP/Esalq, em cursos de LGPD no IBDEE e de DREX na LEC, além de ser treinador credenciado pela Exin em módulos de privacidade.


