O Jogo do Bicho, inextinguível

Jogo do Bicho I 20.11.02

Por: sync

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O jogo do bicho, a bem dizer, começou com as flores. Isso foi mais ou menos no início do governo de Floriano, cuja austeridade e energia transigiam com os jogadores a fim de que daí houvesse mais sossego para uma administração preocupada, antes de tudo, com a ordem pública.
Floriano entendia que enquanto se jogava, não se conspirava.
Certo Manuel Ismael Zevala, cidadão mexicano, aqui apareceu em 1892 com um jogo de flores. Ele mesmo bancava, num sobrado da rua do Ouvidor. Parece que o êxito não foi grande. Zevala, que conhecia o barão de Drummond, procurou-o. O barão – João Batista Viana Drummond -, amigo de dom Pedro II, criara aqui o Jardim Zoológico, em terrenos de sua propriedade no bairro de Vila Isabel. O monarca dava-lhe uma subvenção, visto que o Jardim era desde 1888 franqueado ao público. O auxílio imperial era de 10 contos, por ano. Mas em 1889 veio a Republica e a subvenção foi cortada. O barão, com a sua fortuna pessoal empregada na bicharada do Jardim, viu-se em crise financeira das mais difíceis. Foi quando Zevala lhe disse da conveniência de substituir o jogo das flores, então de movimento precário, pelo jogo dos bichos. No começo de 1893, iniciou-se a temporada. Cada visitante do Jardim, ao comprar a entrada, recebia o ingresso com a indicação de um animal, que significava a possibilidade de um prêmio vinte vezes maior do que a soma despendida com o bilhete. Cada ticket, mil-réis, e o visitante se achava em condições de ganhar vinte mil-réis.
O jogo era simples. Havia um quadro enorme içado a um mastro fincado ao pé do portão do Jardim. Nesse quadro, em figura e nome, o bicho desenhado e colorido que era o vencedor, rigorosamente coberto por um tapa-vista. Assim era durante o dia. O tapa-vista era fechado a chave. A honradez, em primeiro lugar. O quadro da surpresa era inviolável. À tarde, perante a multidão de curiosos e jogadores, revelava-se o segredo. Em poucas horas, a engenhosa invenção canalizava dinheiro a rodo para os bolsos do barão e do mexicano. O jogo foi durando, cada vez mais rendoso, até que a polícia decidiu proibi-lo. Como divertimento, ia bem. Como exploração do vício urgia acabar. Mas, não acabou. Teve as suas férias. No limiar deste século, com o surto audacioso das loterias, a estas o jogo do bicho se associou. Não é mais o quadro do barão, nem a fauna de seu parque o que atrai. O jogo empolga a cidade. Joga o rico, o remediado, o pobre, jogando patrões e empregados. O bicho é plebeu, mas é também mundano no mecanismo social. Toda a gente dá palpites. Há os mais absurdos e incríveis. Os jornais mantêm seções especializadas. Usa-se de recursos os mais extravagantes. O bicho dominou a sociedade. A Mascote, folha diária, noticiosa e literária, era o seu órgão oficial.
No enterro de José do Patrocínio, ao entardecer, houve grande acompanhamento e muitos oradores falaram à beira do túmulo do jornalista-tribuno da Abolição. Entre os presentes, achava-se o poeta Guimarães Passos, amigo íntimo do morto, seu antigo auxiliar na Cidade do Rio. Patrocínio costumava atrasar-se no pagamento de seus redatores e repórteres. Guimarães Passos, um deles, viu-se reduzido a credor do extinto, de dezenas de contos de réis. Foi o último a sair do cemitério, não sem tomar boa nota do número da sepultura. No dia seguinte pela manhã, Guimarães Passos jogou no milhar, na centena, na dezena e no grupo. Cercou o bicho por todos os lados. Ganhou. Para ele, boêmio inveterado sempre roído de dívidas e necessidades, o que recebia era uma pequena fortuna. Com os bolsos cheios de dinheiro, já embriagado, correu ao cartório de José Mariano e foi dizer ao parlamentar ilustre, chefe liberal e líder abolicionista, que também estivera no enterro, como se operara a sua felicidade. Deserto o cemitério, ele se aproximara do túmulo de Patrocínio e a este fizera uma invocação. “Oh! Zé do Pato, meu amigo! Tu, que durante tantos anos me pediste trabalho sem mo pagar, dá-me o palpite do bicho de amanhã. Tem pena de mim, que nunca te faltei!”.
De repente, como que movido por uma força oculta, fixou o olhar no número gravado na sepultura. Nervoso, copiou-o. Toda a noite, sem dormir, esteve a pensar, a perambular pelas ruas e a beber. Jogou na manhã seguinte. Acertou em cheio. Abraçava a José Mariano, dançando de contente no cartório.
O bicho, próspero, opulento e radiante de prestígio, desdobrava-se. Multiplicava-se. Dentro de um só sistema de jogo, os sistemas multiplicavam-se. Jogava-se no Antigo, no Moderno, no Salteado, no Rio, no Agave Americano, no Buraco, no Caridade, no Popular, no Elefante, no Moderno Loto, no Nascente, no Ocidente, no Carioca, no Garantia, no Ajuda de Nossa Senhora, no Talismã, etc. etc.
A polícia tinha épocas de tolerância absoluta e de perseguição encarniçada. As épocas de tolerância eram de vacas magras. A polícia aborrecia-se. As de perseguição, porém, eram de vacas gordas. A perseguição era um meio seguro, infalível, de se extorquir dinheiro dos bicheiros.
Certa vez, era delegado do 14º Distrito Policial o doutor Parreiras Horta, homem pobre, algo filósofo, eternamente metido no seu fraque preto e surrado. O Chefe de Polícia era Leôni Ramos, que mais tarde seria ministro do Supremo Tribunal Federal. Parreiras Horta, autoridade sisuda, a quem um cavanhaque de espana-injúria ainda dava mais sisudez, tinha lavrado em cartório um flagrante pela contravenção do jogo do bicho. Horas depois, era chamado ao gabinete do chefe. Foi. Leôni Ramos fez-lhe ver que o contraventor autuado era amigo e compadre de um deputado parente do futuro Presidente da República, já eleito. Esse deputado, pessoa a quem não desejava desgostar, empenhava-se para que se tornasse o flagrante sem efeito.
Parreiras Horta não se perturbou, concordando:
– É fácil a V. Exª mandar rasgar o flagrante. Designe agora mesmo o meu substituto, porque já não sou mais delegado.
Leôni Ramos assustou-se. Não esperava por aquela. E acudiu cortes, procurando conciliar: – Não, não é caso disso. Ao contrário. O senhor merece toda a confiança.
– Sim, resumiu tranqüilamente Parreiras Horta, para se despedir e sair. Bem sei. Mas o senhor é que já não merece mais a minha confiança.
Abandonou o cargo.
Banqueiros de bicho houve que lograram notável situação. Enriqueceram. Trocaram o bicho por outros negócios. Tornaram-se alguns até cavalheiros opulentos e de respeitabilidade social.
Em 1915 ou 1916, o senador Érico Coelho, homem de talento e de originalidade, quis legalizar o bicho. Estudou o problema a fundo. Descobriu as origens desse jogo em Cambodge. Apresentou ao Senado um projeto a respeito. Érico argumentou que se se podia apostar sob as patas de um só dos vinte e cinco bichos, o cavalo, era natural e coerente que se apostasse nos demais vinte e quatro, visto que o cavalo não era mais nobre, nem mais útil ao homem do que, por exemplo, o cachorro, o burro, o touro, o carneiro, o porco, o galo, o peru e a vaca.
O projeto de Erico encalhou no Senado. Quando ele tempos antes era deputado tinha apresentado outro para estabelecer o divórcio. Também ficou arquivado na Câmara.
Não tinham sorte os projetos do deputado. E o jogo do bicho está na mesma. Vamos descobrir qual era o número do projeto?
(1951)
(BANDEIRA, Manuel; ANDRADE, Carlos Drummond de. Rio de Janeiro em prosa e verso)
OS CALANGOS DO JOGO DE BICHO
Todos nós conhecemos estes desafios pastoris improvisados em linha ou ponto que se chamam calangos, os quais já invadiram até o rádio nacional.
A título de curiosidade vamos transcrever dois calangos do popular jogo de bicho, recolhidos em Divisa, Guaçuí, Espírito Santo, por Miguel Rodrigues Faria.
São eles da linha do ão e da linha do ado.
1º Calango
Nº 1 é o avestruz
Começou a coleção.
Nº 2 é a águia,
Que bate o bico no chão.
Nº 3 é o burro.
Que anda debaixo do pião.
Nº 4 é a borboleta,
Que voa e traz verão.
Nº 5 é o cachorro,
Que trouxe o nome de cão.
Nº 6 é a cabra,
Que dá leite pros pagão.
Nº 7 é o carneiro,
Que dá lã pro colchão.
Nº 8 é o camelo,
Bicho que anda corcovão.
Nº 9 é a cobra,
O bicho da maldição.
Nº 10 é o coelho,
Que engana cachorro bão.
Nº 11 é o cavalo,
Que dá sela pro patrão.
Nº 12 é o elefante,
Que a tromba arrasta no chão.
Nº 13 é o galo,
Que tem crista e esporão.
Nº 14 é o gato,
Que pega rato à traição.
Nº 15 é o jacaré,
Que bate caxa no fundão.
16 é o número do rei dos bichos,
Que é o Lião.
17 é o macaco,
Que pula de vão em vão.
Nº 18 é o porco,
Que cozinha no caldeirão.
Nº 19 é o pavão,
Bicho cheio de espravão [pele áspera do pé].
Nº 20 é o piru,
Que é chamado na função.
Nº 21 é o touro,
Que puxa carro e carretão.
Nº 22 é o tigre,
Que dá tapa e esconde a mão.
Nº 23 é o urso,
Que brinca pra ganhar tustão.
Nº 24 é o veado,
Que mora no chapadão.
Nº 25 é a vaca,
E acabou-se a coleção.
2º Calango
1 é o avestruz,
Começou o numerado.
2 é a águia,
Bicho do bico virado.
3 é o burro,
Que aceita sela e socado.
4 é a borboleta,
Que voa no cerrado.
5 é o cachorro,
O rei dos bichos educados.
6 é a cabra,
Que dá leite pros coitados.
7 é o carneiro,
Que dá lã pro colchoado.
8 é o camelo,
Que tem o lombo encorcovado.
9 é a cobra,
Bicho maldiçoado.
10 é o coelho,
Que é bicho desconfiado.
11 é o cavalo,
Que não anda desferrado.
12 é o elefante,
Que dorme no pau encostado.
13 é o galo,
Que canta empoleirado.
14 é o gato,
Que pega o rato no apertado.
15 é o jacaré,
Que vive no seco e no molhado.
16 é o Lião,
Rei dos bichos, respeitado.
17 é o macaco,
Que pula de galho em galhado (ou de gaio engaiado).
18 é o porco,
Que dá banha pro mercado.
19 é o pavão,
Que tem o pé engafeirado [pele áspera].
20 é o piru,
Que na mesa é separado.
21 é o touro,
Que tá preso no cercado.
22 é o tigre,
Bicho mal encarado.
23 é o urso,
Que brinca pra ganhar trocado.
24 é o veado,
Que mora no cerrado.
25 é a vaca,
E acabou-se o numerado.
Além destes há em diversas outras linhas.
Deve notar-se que antes de cada número o calangista diz com muita seriedade nº 1, nº 2, etc.
Merecem reparo também as observações feitas sobre bichos estranhos à nossa fauna: o camelo, bicho que anda corcovão… o elefante, que a tromba arrasta no chão… o leão, o rei dos bichos respeitado…. o pavão que tem pé engafeirado isto é de pele áspera… o urso que brinca para ganhar tostão, alusão, talvez, aos ursos que dançam nos circos.
Quero deixar, como nota final, o esclarecimento de que nós já ouvíramos estes dois calangos radiofonizados, sem a singeleza das canções cantadas pelo povo.
Mesmo porque, estes servem para animar as festas religiosas da paróquia, em que há sorteio feito pela roleta de 25 números, que se adaptou à divulgação do tão popular quão perseguido jogo do bicho, de origem mui nobre…
[1949] (PACHECO, Renato José Costa. Folclore, novembro e dezembro de 1949)

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