O paradoxo do futebol brasileiro: quanto maiores as oportunidades, piores os resultados

Apostas I 16.05.23

Por: Elaine Silva

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Guilherme Ravache*

Uma tempestade perfeita é uma situação crítica ou desastrosa criada por uma poderosa combinação de fatores. No caso do futebol brasileiro, além de anos de prejuízos e cartolagem ineficiente, novos fatores foram adicionados à uma combinação desastrosa.

Empresas de apostas sendo reguladas pelo governo e pagando mais impostos, a crescente desconfiança do público com acusações de trapaça nos jogos, os prejuízos no streaming e a TV em baixa colocam o setor que há décadas vive no prejuízo diante de um crescente desafio: onde encontrar dinheiro.

Nos últimos anos, os sites de apostas inundaram o setor com rios de dinheiro. A estimativa é que as empresas movimentam mais de R$ 150 bilhões por ano. E segundo levantamento do governo, o setor gasta mais de R$ 3 bilhões com patrocínios e publicidade.

Mas esses patrocínios serão afetados se a MP das apostas for aprovada. As empresas serão taxadas em 16% sobre a receita obtida com todos os jogos feitos, subtraídos os prêmios pagos aos apostadores (atualmente, o imposto é de somente 5%).

Se havia boa vontade com o setor, ela diminuiu consideravelmente com os recentes escândalos de trapaça entre jogadores acusados de manipularem resultados para faturar com apostas.

Algumas empresas de apostas já dão como certa a aprovação da MP e têm reduzido o investimento em publicidade, alegando que precisam reforçar o caixa para a nova legislação. É pouco provável que os clubes também não sejam impactados se houver menos dinheiro no mercado.

Crise na TV e no streaming impactam futebol

Mas se a queda dos investimentos do setor de apostas é ruim, o maior risco está entre os compradores de direitos esportivos. As TVs nas últimas décadas se tornaram a principal fonte de renda dos clubes.

Segundo levantamento da consultoria SportsValue, direitos de TV e premiações renderam R$ 3 bilhões aos 20 principais clubes brasileiros em 2022. Transferências renderam R$ 1,4 bilhão e marketing, R$ 1,2 bilhão.

A chegada do streaming ao país e a crença de que o futebol seria uma solução mágica para atrair assinantes inflacionou os preços dos direitos, mas gerou um risco sistêmico para o setor.

Ao apostarem que o streaming seria o futuro, clubes e ligas relegaram as TVs a segundo plano e venderam jogos a preço de ouro para plataformas de streaming e até entregaram por valores baixíssimos os jogos ao YouTube, tentando atrair investimentos da gigante de tecnologia (até o momento, sem grande sucesso).

O resultado foi o naufrágio das contas das plataformas de streaming, que pagaram bem mais do que deveriam, um agravamento da crise de audiência nas TVs (e por consequência de também receita) além de consumidores irritados com problemas nas plataformas digitais como “delays” nas transmissões e a dificuldade de saber onde assistir aos jogos.

Mas o pior provavelmente aconteceu com os anunciantes, que antes ficavam limitados à TV, e com os jogos em várias plataformas, ganharam poder de barganha. O resultado foram reduções de preços médios. Ao poderem escolher entre diversas plataformas, as marcas usaram isso para reduzir os valores da publicidade nas negociações, fechando com quem oferecesse mais por menos.

Futebol no Brasil: hábil em perder

Desde o surgimento do streaming há mais de uma década, entre as grandes plataformas, somente Netflix e Discovery+ dão lucro consistentemente. Não é coincidência que as duas são as únicas que não têm campeonatos ao vivo.

O caso da Paramount é simbólico. A empresa comprou a Copa Libertadores e a Copa Sul-Americana para exibir em seu streaming a partir de 2023. A estratégia de usar esportes para atrair assinantes, além da América Latina, foi usada em outros países como os Estados Unidos.

Na semana passada, a Paramount reportou um prejuízo de R$ 5,5 bilhões no primeiro trimestre, sendo R$ 2,55 bilhões de prejuízo somente com o streaming. As ações da companhia, que também anunciou que cortaria dividendos, caíram 28%.

A companhia apontou que crescentes custos no streaming estavam entre as causas de seu péssimo resultado. Pouco provável que futuramente a empresa esteja disposta a desembolsar a mesma quantia a fundo perdido por direitos esportivos no streaming.

A Warner Bros. Discovery anunciou lucros no streaming no primeiro trimestre, mas alcançou o resultado apenas por meio da redução de custos. Porém, o lucro líquido caiu 225%, como afirmou o analista Evan Shapiro.

Na Disney está tão difícil reduzir o prejuízo com o streaming que Disney+ e Hulu devem se unir e o Star+ tem chance de deixar de existir. Com menos plataformas, diminui a concorrência por conteúdo esportivo. Além disso, as empresas podem concluir que filmes, séries, novelas e reality shows oferecem um custo benefício melhor do que os esportes para atrair e reter assinantes.

Abraço dos afogados

Outro risco pouco discutido são as garantias oferecidas pelas empresas que têm comprado os direitos de transmissão para revendê-los no país no futuro. UEFA, FIFA e até mesmo a Conmebol cobram de quem está adquirindo os direitos que comprovem que tem os recursos necessários para pagar o que está acordado no contrato.

Porém, diante da dificuldade de negociar com players tradicionais e na expectativa de atrair plataformas de streaming, a regra tem sido flexibilizada. Se o mercado entrar em crise, há chances das empresas que não possuem garantias quebrarem e não pagarem o valor dos direitos.

Foi o que aconteceu com o Diamond Sports Group, o maior proprietário de redes esportivas regionais dos Estados Unidos, que entrou com pedido de proteção contra falência do Capítulo 11 em março. A mudança ocorreu depois que a empresa não realizou o pagamento de juros de US$ 140 milhões em fevereiro.

O Diamond possui 19 redes sob a bandeira Bally Sports. Essas redes têm direitos sobre 42 times profissionais – 14 de beisebol, 16 da NBA e 12 da NHL, de hockey.

Além disso, enquanto ligas de futebol e de outros esportes, como a NFL e NBA, fecharam nos últimos meses contratos de longa duração para aproveitar a enxurrada de dinheiro no mercado, no Brasil os clubes não conseguiram nem mesmo entrar em consenso para criar uma liga capaz de negociar o Campeonato Brasileiro, principal competição do país.

Escândalos, desorganização, estratégias ruins de negociação que atrapalham parceiros tradicionais. No futebol brasileiro o risco é sistêmico. O setor tem tudo para ser grandioso, mas vive eternamente aquém de seu potencial. Quanto mais oportunidades surgem, como no caso das apostas e streaming, mais ele perde. É um paradoxo.

(*) Guilherme Ravache é consultor e atua em projetos de jornalismo digital no Brasil e exterior. Nos últimos anos, especializou-se na cobertura do mercado de mídia. O artigo acima foi veiculado pelo Valor Econômico.

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