Sear Jasu: Não creio que o STF anule a legislação que proíbe os jogos de apostas em dinheiro administrados pela iniciativa privada

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Sear Jasu, advogado, consultor jurídico da Associação Brasileira de Loterias (ABLE) e da Associação Brasileira de Cassinos, Bingos e Similares (Abrabincs)

Em entrevista exclusiva à Tribuna da Imprensa Livre, o advogado, consultor jurídico da Associação Brasileira de Loterias (ABLE) e da Associação Brasileira de Cassinos, Bingos e Similares (Abrabincs), Sear Jasu: “Os cassinos resorts representam uma reedição da lenda dos espelhinhos que os colonizadores trouxeram e mostravam aos nossos indígenas. O reflexo da luz do sol e a visão dos seus rostos do outro lado do espelho, induziam poder sobrenatural. Nos deixaram os espelhos e levaram o ouro e as madeiras de lei. Os pequenos cassinos urbanos são aqueles que podem atender a realidade brasileira.”
Luiz Carlos Prestes Filho: O executivo federal, estaduais e municipais tem contribuído para com o esforço de regulamentação dos jogos de apostas em dinheiro administrados pela iniciativa privada? O tema está pautado do ponto de vista destes governos para 2021?
Sear Jasu: Devido a interpretação jurídica de que os jogos de apostas seriam monopólio da União, essas iniciativas ficaram sempre no plano federal. Os avanços foram bastante lentos em relação ao rápido desenvolvimento do mercado, mormente após o aparecimento dos meios eletrônicos de processamento. O poder público brasileiro convive há 120 anos com o Jogo do Bicho, sem ter chegado a decisão de regulamentá-lo. Está presente nos 5.500 municípios do país, em todos os bairros de todas as cidades. Nesse tempo vieram as máquinas eletrônicas e os jogos online e, por fim, as apostas esportivas que proliferaram no mercado com uma velocidade espantosa.
Os estabelecimentos de jogos – bingos, cassinos, salas de jogos – igualmente foram banidos do permissivo legal brasileiro.
Prestes Filho: Governadores e prefeitos defendem a legalização dos jogos? Bingos e Cassinos beneficiariam a arrecadação tributária?
Sear Jasu: As últimas iniciativas foram a criação de uma loteria instantânea- a LOTEX- que, após anos de discussão e mutações no seu formato, terminou não se inviabilizando, atropelada por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que reconheceu aos Estados e Distrito Federal a competência administrativa para exploração de jogos que sejam instituídos pela União Federal; e a Regulamentação das Apostas Esportivas – que se constituíram num fenômeno mundial atingindo diversas camadas de mercado de forma regulamentada ou não que está em processo de complementação.
Prestes Filho: Na Câmara dos Deputados de Brasília, nos últimos anos, aconteceu uma valorização do tema Cassino Resort. Esta valorização abre perspectivas concretas para Estados e municípios?
Sear Jasu: Devido a polêmica que o assunto representa, as defesas dos estados por uma regulamentação do tema e uma partilha de competências foram sempre muito cautelosas, diria até tímidas, com exceção das discussões sobre Cassino-Resort, talvez na expectativa que uma Las Vegas nasça em seus respectivos estados ou municípios.
Prestes Filho: Qual é a ordem de prioridades para instalação da infraestrutura de jogos regulamentados no Brasil?

Sear Jasu: Cassino Resort é a forma de exploração que menos beneficiará estados, municípios e rede hoteleira local. São mega estruturas fechadas dentro de si. Pelas conversas que participamos com alguns grandes operadores internacionais, o interesse deles começa por São Paulo e Rio de Janeiro e, após isso, avaliariam a viabilidade de operações em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Brasília e uma operação em um Estado nordestino. Isso já desqualifica o discurso de que trarão grandes levas de turistas. O foco é o mercado local. Las Vegas se consolidou com o jogo proibido no restante do território americano, o que fazia convergir para a cidade os aficionados dos jogos. Formou uma colossal infraestrutura de eventos, com o turismo de lazer e de negócios se misturando, e resistiu o avanço de outras localidades no território americano com operações de cassinos- hoje existem cerca de 1.500. Macau foi um caso semelhante: com o jogo proibido no continente chinês e permitido apenas na ilha de Macau, o emergente mercado local convergiu para a cidade na sua busca de entretenimento e lazer. O Brasil não está próximo de nenhum grande mercado virgem. Os americanos, canadenses, tem todo o território americano, a América Central com o Caribe, o norte da América do Sul, todos com operações de cassinos. Não iriam atravessar todas as paralelas do globo para jogar em cassinos no sul do Brasil. Serão necessários outros atrativos turísticos para motivar tais viagens. O mercado local é o grande interesse. E o querem em forma de oligopólio poucos grupos dividindo o mercado em concessões de longo prazo. É uma reedição da lenda dos espelhinhos que os nossos colonizadores trouxeram e mostravam aos nossos indígenas o reflexo da luz do sol e a visão dos seus rostos do outro lado do espelho. Induziam poder sobrenatural. Nos deixaram os espelhos e levaram o ouro e as madeiras de lei.
Acho que os pequenos cassinos urbanos podem atender a realidade brasileira podendo, inclusive, ser vinculados a hotéis. Ocupariam uma fração de mercado que ficou sem opções formais, com o fechamento dos bingos, ao tempo em que colocariam mais uma opção de lazer nos diversos destinos turísticos.
Prestes Filho: A regulamentação de jogos de apostas em dinheiro poderia colaborar com melhorar a arrecadação para os cofres públicos?
Sear Jasu: Isso sempre foi mostrado pelos defensores da regulamentação dos jogos. Uma arrecadação que não significaria imposto novo. É um imposto voluntário. Além da geração de preciosos empregos formais, e toda uma cadeia produtiva que se movimenta como prestadora de serviços e fornecedora de materiais e equipamentos para os estabelecimentos.
Prestes Filho: Quais cidades do nordeste poderiam se beneficiar diretamente com a regulamentação? Qual é o real potencial desta região?
Sear Jasu: A presença de cassinos seria mais um atrativo nas áreas turísticas do nordeste, bem como de outras regiões. Seriam um aliado das boas condições climáticas da região.
Prestes Filho: De quais eventos internacionais sobre o tema você participou nos últimos anos?
Sear Jasu: Participei das feiras anuais de jogos de Londres (ICE Totally Gaming), Las Vegas (Global Gaming); congressos e seminários em Miami, São Paulo, Buenos Aires e Bogotá. Vejo sempre um ambiente de integração governos/empresas, com a presença das grandes empresas mundiais e também de diversos diversas autoridades reguladoras, inclusive brasileiras.
Prestes Filho: Existe possibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF) anular os efeitos da Lei das Contravenções Penais?
Sear Jasu: O STF tem sido ao longo da história muito cauteloso em relação às repercussões políticas dos seus julgados. Seria legislar às avessas num tema que o Congresso Nacional debate há, pelo menos, 30 anos. Retira a proibição, libera geral, sem regras, sem controles. Não seria bom para o mercado, também. Essa atividade lida com a credibilidade pública e precisa se pautar por critérios de integridade, de solvência dos ofertantes de produtos de jogos, normas relativas ao branqueamento de capitais, etc.
Não creio que aconteça.

Prestes Filho: O executivo federal tem estrutura para realizar a regulamentação no prazo de um ano?
Sear Jasu: O governo federal possui quadros técnicos muitos qualificados que acompanham esse movimento do mercado de jogos há bastante tempo, marcando presença nesses eventos que mencionei acima e fazendo intercâmbio de informações com outros reguladores.
O redimensionamento dos quadros para atender a uma nova realidade será autofinanciável, pois a regulamentação trará novas receitas que hoje não estão se materializando, seja pelo alto volume de informalidade, seja por serem drenadas para outros países.

(Série ‘Regulamentação de Jogos’ coordenada pelo Diretor Executivo do jornal Tribuna da Imprensa Livre, Luiz Carlos Prestes Filho – Entrevista publicada nesta quinta-feira, dia 18 de fevereiro)

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