Site identificou fraude em aposta de investigados, anulou jogo, mas não reportou caso

Apostas I 17.05.23

Por: Magno José

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O doutor em integridade no esporte Felippe Marchetti explica que, sem uma regulamentação do setor, as casas não são obrigadas a repassar suas informações para as autoridades

Para além de contratar jogadores para que manipulassem jogos e aumentassem seus lucros, o grupo de apostadores denunciados na Operação Penalidade Máxima precisava de um modo de operar específico, com a abertura de dezenas de contas em sites de apostas para potencializar o lucro do esquema. Em uma operação no início de 2023, uma casa de apostas chegou a identificar uma possível fraude nos investimentos e classificar as apostas como “nulas”, o que gerou insatisfação do grupo. É o que revelam as conversas na denúncia do Ministério Público de Goiás. Apuração do GLOBO mostra que a empresa não informou o fato às autoridades.

O ocorrido foi em fevereiro de 2023. Em uma aposta múltipla, feita para multiplicar os lucros apostando em vários eventos ao mesmo tempo, os apostadores variaram de modalidade e campeonato: apostaram que um jogo do mato-grossense teria mais do que nove escanteios, que o Goiás venceria o Goiânia pelo estadual ainda no primeiro tempo e que, em dois jogos do Campeonato Gaúcho, dois pênaltis seriam cometidos no primeiro tempo. Com jogadores aliciados em quatro times diferentes, orientados e pagos para determinadas ações, os apostadores viram tudo acontecer como planejado, em todas as partidas.

Na hora de retirar o prêmio, porém, um problema. Em algumas das contas utilizadas com diversos CPFs diferentes, no site Betano, a aposta aparecia como nula. Ou seja, o apostador não perdia o dinheiro investido, que voltava para a conta, mas tampouco levava o prêmio. O motivo? Segundo os relatos, o sistema de atendimento ao consumidor da casa de aposta alegou aos suspeitos a possibilidade de fraude, colocando o jogo sob investigação.

Apesar de todos os resultados da aposta terem sido manipulados e contarem com o mesmo valor investido, o sistema do site de apostas ligou o alerta de fraude especificamente no pênalti cometido pelo jogador Jarro Pedroso, do São Luiz de Ijuí, em jogo contra o Caxias, pelo Campeonato Gaúcho.

“Putz, pior que foi normal o lance. Nem ficou na cara”, diz William de Oliveira Souza, um dos apostadores, após conferir o vídeo do pênalti encomendado, nas conversas do processo do MP-GO.

Transcrição de áudio de Bruno Lopez, apontado como líder da quadrilha (Foto: reprodução)

Em áudio, Bruno Lopez, apontado como o chefe da quadrilha, explica para um interlocutor os problemas encontrados. Ele afirma que são dezenas de contas afetadas pelo “erro” e que tentaram resolver pelos canais de suporte. “Alguns chat fala (sic) que é suspeita de fraude, outros falam que tá em análise, outros falam pra esperar até mais tarde, outros falam que o jogo tá em investigação”, afirma Bruno, que também envia a captura de tela mostrando a aposta anulada.

Camila Motta da Silva, uma das sete integrantes do grupo que foi denunciada, mulher de Bruno, aparece em um áudio explicando para um interlocutor sobre a dificuldade em resgatar o dinheiro das apostas em uma operação datada de 13 de fevereiro.

No grupo em que os apostadores combinavam a operação, os integrantes demonstraram apreensão com as apostas que constam como “nulo”, apesar de todos os eventos necessários para o resultado terem acontecido. Luís Felipe Rodrigues de Castro, que aparece nas conversas como LF, indaga: “Será que eles podem fazer isso?”, se referindo ao fato de as casas anularem os bilhetes. “Mano que loucura é essa. Que zika do caralho”, reclama Bruno. Eles também mencionam mensagens em “chats”, referindo-se a canais de suporte da Betano.

Em um momento de desespero, os integrantes da quadrilha cogitam até mesmo uma ação legal contra a casa de apostas, que estava sendo fraudada pelo grupo. “Só falta ter que entrar com processo”, diz um dos apostadores.

Mesmo com a identificação de fraude, a Betano não procurou o MP-GO, que coincidentemente deflagrou a primeira fase da Operação Penalidade Máxima um dia após a casa suspeitar da fraude na aposta.

Segundo o MP-GO, desde o início da investigação, no ano passado, nenhuma casa de apostas procurou o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) para denunciar indícios de fraude.

— Detectamos que o próprio site (Betano) identificou uma movimentação anormal e bloqueou as apostas. Cada aposta de R$ 500 geraria um lucro de R$ 46 mil. O próprio site bloqueou e o grupo tentou destravar essas contas. Mas nenhuma casa de aposta nos procurou até agora, não chegou nenhum comunicado desde o início da investigação — afirmou o promotor Fernando Cesconetto.

O doutor em integridade no esporte Felippe Marchetti explica que, sem uma regulamentação do setor, as casas não são obrigadas a repassar suas informações para as autoridades. Com a MP das apostas esportivas, prevista para ser publicada nos próximos dias, há esperança de avanço neste sentido. Principalmente com a criação da agência que unirá policias, Ministério Público e entidades esportivas no combate à manipulação.

— Espera-se que, com a criação da agência, as casas sejam obrigadas a compartilhar seus dados com o governo e com a agência de integridade, principalmente quando houver uma atividade suspeita. Hoje elas reportam se quiserem e para as entidades que quiserem — explica.

O que dizem as casas de apostas

CEO da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), que tem 13 empresas de apostas associadas, Wesley Cardia explica como as casas conseguem identificar fraudes em alguns casos. A forma como usam essa informação varia de acordo com o site:

— Existem padrões que são observados pelo próprio sistema, de maneira automática. Em um fato qualquer, como um cartão amarelo ou número de escanteios ou pênaltis, é possível perceber que há uma quantidade de apostas normalmente feitas, então há uma previsibilidade. De repente, se os computadores identificam que está havendo muita aposta e de valor mais elevado em um desses casos, acende uma luz vermelha para a casa de apostas.

Segundo o CEO, no entanto, depende de cada casa de aposta o que fazer com essa informação, desde reportar ou não para autoridade, até a decisão interna de anular ou não a aposta. O executivo disse haver casos de “casas sérias” que reportam as fraudes para as autoridades, mas não quis citar exemplos.

Em nota, a assessoria da Betano, casa de aposta do caso em questão, afirmou que “conta com tecnologias que visam proteger os dados dos clientes contra vulnerabilidades/fraudes, está alinhada e apoia a ANJL no desenvolvimento de novos programas de integridade do esporte, monitoramento de atitudes suspeitas, prevenção e bloqueio de contas suspeitas”. Sobre as apostas anuladas, a empresa afirma que “existem nos termos e condições da Betano algumas cláusulas que preveem a anulação das apostas”, mas não respondeu por que não informou o fato às autoridades e qual o procedimento nestes casos. (O Globo)

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Nota do editor do BNLData

O fato da modalidade das apostas esportivas não ser regulamentada no Brasil dificulta aos sites que operam offshore comunicar as autoridades a suspeita de manipulação.

A omissão do governo anterior em não regulamentar a modalidade, aliada a atuação das empresas de monitoramento de risco que têm convênios com as federações e confederações podem ter sido os fatores que facilitaram a atuação dos manipuladores de resultados em jogos do Campeonato Brasileiro das Séries A e B.

 

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