Zema promete proibir bets na Presidência, mas autorizou apostas em Minas Gerais

Romeu Zema faz campanha contra as bets com a bandeira “chega de bets” e promete proibi-las se eleito presidente, mas sua gestão à frente do governo de Minas Gerais autorizou a Loteria Mineira a operar apostas esportivas e jogos online sob o domínio Lotominas.bet. A contradição foi exposta durante sabatina realizada nesta terça-feira (25/8) pelo jornal O Globo, rádio CBN e jornal Valor Econômico.
A nova postura do candidato do Novo em relação às apostas não constava em seu plano de governo e só passou a ganhar espaço na campanha após a entrada do senador Eduardo Girão (Novo-CE) na chapa como vice. Girão é reconhecido por sua atuação contrária às bets no Senado Federal.
Durante a sabatina, a jornalista Malu Gaspar questionou Zema sobre o decreto que editou em 2021 para incluir jogos online na Loteria Mineira, permitindo apostas esportivas. O candidato respondeu que sua gestão apenas seguiu as regras federais e que qualquer governador estava sujeito a responder por prevaricação se não zelasse pela maximização das receitas do estado. “Eu fiz de acordo com a lei federal. Eu não era obrigado a fazer, mas eu podia ser processado por prevaricação”, afirmou.
Partido adota posição diferente do candidato
Enquanto Zema faz campanha com a camiseta preta estampada com “chega de bets” e compara o vício em apostas ao consumo de cocaína, o Novo adotou posições mais flexíveis sobre o setor ao longo do ciclo legislativo recente. No início deste ano, a bancada do partido na Câmara dos Deputados apresentou projeto para derrubar uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) que havia restringido o mercado preditivo, classificado pelo governo federal como uma modalidade de aposta.
Em fevereiro, durante a votação do PL Antifacção, o Novo liberou sua bancada para votar livremente nos destaques que tratavam da taxação das bets. O deputado Marcel Van Hattem (Novo-RS) declarou que, embora fosse contrário ao mercado de apostas, não concordava com aumento de impostos sobre o setor. Outro parlamentar da legenda, o deputado Luiz Lima (Novo-RJ), afirmou em audiência na Comissão de Esportos da Câmara ser favorável ao funcionamento das bets.
Em nota, o partido afirmou que “a decisão é de foro individual, respeitada a consciência de cada filiado”, sem impor diretriz partidária sobre o tema.
Afirmações sem respaldo em dados oficiais
A campanha de Zema contra as apostas veio acompanhada de declarações que não se sustentam em fontes oficiais ou científicas. Em 18 de agosto, o BNLData atribuiu ao candidato o Selo Fake após ele afirmar que prometia fechar casas de apostas como primeiro ato de governo e citar 180 mil tentativas de suicídio e 10 milhões de viciados em apostas no Brasil.
Os números não encontram respaldo em informações oficiais. Para que a estimativa de 10 milhões de dependentes fosse verdadeira, o Brasil teria uma taxa de dependência em apostas 23 vezes acima da média mundial, o que implicaria 1 em cada 3 apostadores, ou 32,4% do total, com transtorno de jogo diagnosticável, percentual sem paralelo em nenhuma substância ou comportamento aditivo estudado pela literatura científica.
Zema também afirmou que o governo federal arrecada bilhões com as bets sem oferecer nenhum programa de apoio aos dependentes. A primeira parte é verificável: em 2025, a União arrecadou cerca de R$ 9,95 bilhões em impostos pagos por empresas de apostas e jogos de azar, segundo a Receita Federal. A segunda parte, porém, é falsa. Desde março de 2026, o SUS mantém um serviço de teleatendimento psicológico específico para apostadores e familiares, com capacidade para até 100 mil atendimentos mensais, acessível pelo aplicativo Meu SUS Digital. O detalhe foi alvo de reportagem do #FATO ou #FAKE do jornal O Globo.
Na mesma sabatina, Zema declarou que, se eleito, pretende restringir ou proibir loterias que dependam exclusivamente de apostas esportivas online. Ao ser questionado sobre a necessidade de aprovação do Congresso para a medida, o candidato disse que tentará ao menos impor restrições mais severas caso não consiga o aval dos parlamentares. Também excluiu a Caixa Econômica Federal de sua lista de privatizações.


