ABRAS usa duas semanas de dados para atribuir alta do consumo à proibição das bets

Apostas I 29.10.26

Por: Magno José

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O vice-presidente da entidade, Márcio Milan, exibiu pela primeira vez um recorte semanal (Foto: Reprodução)

Durante quase 40 minutos, a coletiva mensal da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), realizada nesta quinta-feira (29), seguiu o roteiro de sempre: inflação, mercado de trabalho, cesta de produtos e preços por região. Os números eram mornos. O consumo nos lares caiu 1,46% em setembro na comparação com agosto, o acumulado do ano ficou estável em 2,70% e os preços dos alimentos voltaram a subir.

No último bloco, a apresentação mudou de régua. O vice-presidente da entidade, Márcio Milan, exibiu pela primeira vez um recorte semanal: o varejo alimentar teria crescido 6,5% na semana de 5 a 11 de outubro e 6,3% na semana de 12 a 18, sempre em relação ao mesmo período de 2025. Segundo Milan, a “única coisa diferente” no período foi a proibição das bets.

A tese foi rapidamente reproduzida. Uma análise dos próprios dados apresentados pela ABRAS, porém, mostra que ela tem lacunas importantes.

O que a ABRAS não considerou

A entidade descartou o efeito do Bolsa Família, do PIS/Pasep e dos preços. Deixou de fora, no entanto, duas variáveis que coincidem exatamente com a semana medida.

A primeira é o fim do prazo de saque. Os apostadores tiveram até as 23h59 de 5 de outubro para retirar os saldos das plataformas. A semana analisada começa justamente nesse dia. Ou seja, milhões de apostadores tinham na conta bancária, naquela semana, um dinheiro que até então estava parado nas casas de apostas. Trata-se de um efeito pontual de liquidez, não de uma mudança de hábito de consumo.

A segunda é o calendário. Em 2026, o Dia das Crianças (12 de outubro) caiu numa segunda-feira, o que criou um feriado prolongado logo após a semana medida, com as compras concentradas entre os dias 9 e 11. Em 2025, a data caiu num domingo. Comparar a semana anterior a um feriadão com uma semana comum do ano passado infla qualquer resultado do varejo.

A conta não fecha

Os supermercados faturaram R$ 1,067 trilhão em 2024, cerca de R$ 20 bilhões por semana. Uma alta de 6,5% em uma semana equivale a mais de R$ 1,3 bilhão.

Pelos dados oficiais da Fazenda, o GGR das bets, que corresponde às perdas líquidas dos apostadores, foi de R$ 36,9 bilhões em 2025 e de R$ 20,07 bilhões no primeiro semestre de 2026, uma média de cerca de R$ 770 milhões por semana.

Para explicar o crescimento apontado pela ABRAS, seria preciso que todo o dinheiro perdido pelos apostadores, e mais um pouco, tivesse migrado integralmente para os supermercados, sem sobrar nada para combustível, contas, farmácia, vestuário ou lazer. Ou para o mercado ilegal, que segue ativo.

O gráfico desmente o discurso

Milan afirmou que o crescimento foi “geral”, “generalizado” e não localizado em nenhuma região. O próprio slide da ABRAS mostra outra coisa.

Na semana de 5 a 11 de outubro, a Grande São Paulo, maior mercado consumidor do país, cresceu apenas 1,2%. Ao mesmo tempo, o Sul e a região de MG, ES e interior do RJ registraram 10,6%. Uma diferença de quase nove vezes entre regiões não descreve um fenômeno uniforme.

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Na semana seguinte, o movimento se inverteu. As regiões que mais haviam crescido perderam fôlego: MG, ES e interior do RJ caíram de 10,6% para 7,1%, o Nordeste de 6,5% para 4,5% e o Sul de 10,6% para 9,0%. Enquanto isso, a Grande São Paulo subiu para 5,5% e a Grande Rio, de 4,0% para 6,0%. O padrão é compatível com ruído de calendário e de base de comparação, e não com um efeito estrutural ligado às bets.

A ABRAS também não informou se os números se referem a faturamento ou a volume, nem apresentou a série histórica semanal que justificaria classificar o resultado como “atípico”.

Onde mais se apostava, o consumo cresceu menos

O BNLData cruzou os dados de apostas por município, de janeiro de 2025 a abril de 2026, com as regiões usadas pela ABRAS e com a população do Censo 2022. A Grande Rio e a Grande São Paulo concentram 30% dos apostadores do país e 29% do valor apostado, embora tenham apenas 16% da população.

Na Grande Rio, havia 17,4 apostadores para cada 100 habitantes, mais que o triplo das demais regiões. Na Grande São Paulo, 6,5. São as duas maiores concentrações do país. Mesmo assim, foram as regiões metropolitanas que menos cresceram na semana de 5 a 11 de outubro: 1,2% na Grande SP e 4,0% na Grande Rio.

O Sul, onde há a menor proporção de apostadores (3,5 por 100 habitantes), empatou na liderança, com 10,6%.

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Se o dinheiro antes destinado às apostas tivesse migrado para os supermercados, o efeito deveria aparecer justamente onde mais se apostava. Aconteceu o contrário.

Nem a ABRAS revisou a projeção

Questionado na coletiva se o resultado levaria a uma revisão da projeção de crescimento do consumo para 2026, Milan respondeu que não. A estimativa segue em 3,2%, porque, nas palavras dele, os dados correspondem a “apenas duas semanas”.

Em público, os números foram apresentados como prova do efeito da proibição. Na hora de projetar o ano, viraram ressalva.

Da pesquisa ao lobby

A apresentação técnica serviu de base para uma defesa de posição. Ao responder sobre as expectativas para o novo governo, Milan incluiu entre as demandas do setor a “manutenção da proibição das bets”. Sobre a audiência marcada no STF para 3 de novembro, disse que a expectativa da ABRAS é que as bets continuem proibidas e afirmou que elas “vendem uma doença social”.

Não é um movimento isolado. O Assaí liderou campanha contra as bets e divulgou melhora nas vendas sem comprovação. A CNC levou ao STF petições em defesa da MP. E o Planalto, segundo a CNN Brasil, já indicava ter dados não divulgados de melhora no varejo para explorar na propaganda. A coletiva da ABRAS reforça uma narrativa que o varejo vem construindo desde a edição da MP 1.394/2026.

Perguntas bloqueadas

Na coletiva, os microfones dos jornalistas foram fechados, sob a justificativa do grande número de participantes, e as perguntas só podiam ser enviadas pelo chat do Zoom. O BNLData teve o chat bloqueado e não conseguiu apresentar suas questões durante a transmissão. Repórteres do Estadão, da Folha, da TV Verdes Mares e de outros veículos tiveram as perguntas lidas e respondidas.

Outro lado

Após a coletiva, o BNLData enviou à assessoria de imprensa da ABRAS as questões sobre o prazo de saque, o feriado prolongado e a proporção entre o crescimento apontado e o volume movimentado pelas apostas. A assessoria informou que a entidade vai responder, mas não foi possível obter a manifestação até o fechamento desta reportagem. O texto será atualizado assim que a resposta for recebida.

Até lá, a pergunta continua sem resposta: a tese de que a proibição das bets impulsionou as vendas dos supermercados se sustenta, ou ela precisa de muito mais análise do que duas semanas de dados?

 

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