A Questão dos Bingos.
Nada mais delicado, e quase que constrangedor, do que abordar esta questão do funcionamento ou não dos bingos, hoje espalhados em todo o território nacional. Mas há semanas, ouvindo o professor PingueIli Rosa, presidente da Eletrobrás e crítico da primeira hora do Programa Nuclear, no Roda Viva (TV Cultura/Rede Brasil), argumentar que em relação à Angra III não se poderia ignorar os 800 milhões de dólares em equipamentos pagos e armazenados no Brasil, além de outras considerações favoráveis à polêmica obra, ocorreu-me enfrentar o tema que freqüenta o noticiário policial, quando poderia estar na editoria de economia.
Já não se trata de ser contra ou a favor do jogo, nem discutir se os bingos se prestam ou não a lavagem de dinheiro, mas admitir que é uma realidade sua existência, a aceitação pelo público, os impostos recolhidos, os empregos proporcionados, direta e indiretamente, em número impressionante para uma Nação que luta para empregar seus filhos. A mais, as campanhas contrárias aos bingos, hoje – como as perseguições ao jogo do bicho, ontem -, são muito mais passíveis de suspeições do que a defesa de sua existência, sob rigoroso controle fiscal e policial, é claro.
Se o poder público cumprir o seu papel de fiscalizar, de forma transparente – exigindo, inclusive, de acionistas, cotistas, gerentes e empregados atestados permanentes de bons antecedentes e regularidade fiscal-, o país só terá a ganhar com os bingos espalhados em todo o Brasil legalizados e regulamentados.
No Rio, o governo Garotinho instituiu um sistema de contribuição social que vem dando resultados reconhecidos e já seguido por outras unidades da federação, com a Loterj atuando no controle da parte referente ao estado. Logo, parece ser o momento de se tentar identificar quais os interesses e os antecedentes dos que teimam em cercear uma atividade que, mal ou bem, emprega e re- colhe impostos. Entrei uma única vez num bingo, para conhecer, e não tenho relações com nenhum dono de um estabeleci- mento como este, que eu saiba, ao me- nos. Esta é uma opinião colocada no contexto do debate sobre desenvolvi- mento e emprego no Brasil. Precisamos todos, governos e sociedade, de pragmatismo na busca de resultados econômicos e sociais, sem perder de vista princípios éticos e morais. O jogo é uma pratica lícita em inúmeros países, inclusive nos mais adiantados do mundo, movimentando atividades ligadas à vida noturna das cidades. Um puritanismo sem sentido não pode sacrificar empregos e impostos. A mais, esta indefinição provoca uma verdadeira indústria de pressões e contrapressões, em que alguns espertos lucram de maneira inescrupulosa. A clandestinidade, a situação indefinida, estas, sim, favorecem a corrupção, policial, o emprego de mão-de-obra marginal, as conexões com a droga e o lenocínio. O governo pode lavrar um tento ao definir responsabilidades, atribuições e promover uma legislação simples, eficiente e transparente, sem burocracia e sem criar dificuldades que gerem a tentação da busca ou da oferta das facilidades. Este é um momento em que o Brasil luta para se afirmar na sua credibilidade, na vontade nacional de combater a corrupção, de melhorar a qualidade de seus quadros no setor de segurança pública. Por isso, o assunto merece ser encarado e enfrentado sem receios. (*) Aristóteles Drummond é historiador, jornalista e editor de coluna semanal no Jornal do Commércio e articulista da Revista Foco – MG.


