Aprovação de jogos de azar reflete limitações da bancada evangélica

Opinião I 27.02.22

Por: Magno José

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Aprovação de jogos de azar reflete limitações da bancada evangélica
Bruno Boghossian*

Pastores fizeram uma operação para barrar a liberação de cassinos, bingos e jogo do bicho no país. O esforço não deu resultado: a proposta avançou na Câmara e contou até com o apoio de parlamentares que integram a bancada evangélica. Dos 180 deputados do grupo, só 83 votaram contra a legalização da jogatina.

O placar mostra que, embora barulhenta e numerosa, essa bancada enfrenta limitações de coordenação e mobilização. No papel, um de cada três deputados faz parte da frente parlamentar evangélica, mas são poucos os casos em que esses políticos agem unidos ou incluem a religião no cálculo de suas votações.

Integram formalmente a bancada evangélica desde o ex-ator pornô Alexandre Frota (PSDB) até o deputado Altineu Côrtes, líder do PL de Jair Bolsonaro. Os dois votaram a favor da liberação dos jogos. Também é signatário da frente parlamentar o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), que comandou a aprovação do texto e disse que as críticas à proposta partiam de “grupos sectários”.

A votação dos cassinos e do jogo do bicho sugere que, em muitas situações, a capacidade de pressão dos evangélicos no Congresso é superdimensionada, principalmente quando suas preferências estão distantes dos interesses do centrão.

Maior realização dos líderes evangélicos, a aprovação de André Mendonça para o STF só saiu graças a um consórcio dos religiosos com a turma que manda no Congresso. Além da agenda pró-igrejas, o pastor também se comprometeu com uma plataforma de defesa da classe política.

Parlamentares evangélicos conseguem ter mais sucesso em bolas divididas, como pautas relacionadas ao aborto. Com o apoio de políticos conservadores do próprio centrão, eles conseguem interditar qualquer flexibilização da lei –ainda que não acumulem força suficiente para endurecer ainda mais as regras atuais.

A bancada da Bíblia gostaria de ter a influência de seus colegas da bancada do boi. A frente agropecuária tem dinheiro de sobra e sintonia perfeita com os políticos do centrão.

(*) Bruno Boghossian é jornalista, foi repórter da Sucursal de Brasília. É mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA). O artigo acima foi publicado pela Folha de S.Paulo.

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