“Conservadorismo não é o mesmo que caretice”

Opinião I 13.01.22

Por: Elaine Silva

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Bruna Frascolla*

Em política, discussões terminológicas muitas vezes não levam a lugar nenhum. O esquerdista define o que é a “verdadeira esquerda” como sendo ele próprio, e não a facção contrária à sua dentro da esquerda. O liberal e o conservador, idem. A discussão pode durar para sempre porque o que está em questão não é a verdade, mas o poder. No entanto, convém dar um freio de arrumação quando a coisa passa do limite.

No caso da esquerda, a coisa passa do limite quando a classe foi pras cucuias. Tenho em mente os pseudoesquerdistas que passam a reivindicar o direito (nunca negado) de dondocas de ébano vestirem Prada ou saírem em capa de revista de moda, enquanto atacam o porteiro evangélico e o famigerado “pobre de direita”. Historicamente, quem se dizia de esquerda sempre levou em conta a questão da classe. Historicamente, quem não tinha vergonha de mandar a classe para as cucuias e focar só na raça não se dizia esquerdista, dizia-se nazista mesmo.

Historicamente, o liberalismo é identificado com a descentralização do poder. A política da Inglaterra fez uma movimentação inovadora e seus princípios foram documentados por John Locke, que merece ser considerado o primeiro filósofo liberal e referência inevitável. No século XIX houve Mill, uma figura ambígua, de trajetória intelectual conturbada, que terminou socialista. Com base nisso, os anglófonos, sobretudo os dos Estados Unidos, começaram o vandalismo semântico. E nós, que importamos todo tipo de bobagem de lá, estamos vendo os pseudoliberais favoráveis à distribuição estatal de modess e à discriminação estatal entre a verdade e a mentira (pois criminalização de fake news não é outra coisa).

Os conservadores

Entre os conservadores não creio haver um problema dessa magnitude. Mas creio haver uma confusão que a polêmica dos jogos de azar trouxe à tona.

No último podcast O Papo É, Rodrigo Constantino expressou um pensamento que me parece comum e errado: a questão da liberação dos jogos de azar opunha liberalismo e conservadorismo. Embora ele tenha caracterizado corretamente o conservadorismo pelo respeito à ordem estabelecida, que não se confunde com a imutabilidade de tal ordem, no passo seguinte opõe conservadorismo a liberalismo na questão dos jogos de azar. O conservador deveria ser inclinado à proibição de tais jogos, por causa dos argumentos levantados pela bancada evangélica, e o liberal deveria ser favorável à liberação, por uma questão de defesa das liberdades. Constantino se ladeou com os liberais nessa questão e usou a prostituição como exemplo: é possível achar reprovável sem querer proibir.

É um erro confundir a defesa das proibições moralistas com o conservadorismo. Por isso vou pegar o gancho da prostituição.

Numa famosa passagem do ‘De ordine’, Santo Agostinho defende a prostituição. (Ela pode ser lida aqui em inglês ou aqui em latim.) A prostituta não é uma mulher baixa? Para Santo Agostinho, é. E o carrasco, em si mesmo, não é um homem mau? Também. Mas cada qual ocupa o seu lugar na ordem social. Se abolíssemos os homens impiedosos, à sociedade faltariam carrascos e a ordem ficaria comprometida. Se todas as mulheres pouco propensas à vida monogâmica fossem abolidas, a ordem social – segundo a crença de Santo Agostinho – colapsaria. Existe o mal no mundo e não dá para querer melhorar a obra e Deus abolindo-o. Isso é um pensamento profundamente conservador. Considera que o homem é falho, e que reformadores sociais não podem pretender moralizar todo mundo na marra. Considera também que a ordem é complexa o suficiente para acomodar o mal; e, por conseguinte, para que qualquer um possa mudar na mão grande.

Que diria Santo Agostinho das pretensões da bancada evangélica de moralizar a família proibindo tudo? O que as evangélicas ao estilo Damares querem é que a polícia impeça o marido ou o filho de beber demais, de se drogar, de gastar tudo no jogo. Isso não é papel do Estado! É papel do próprio homem, que tem que ser disciplinado; e é papel da mãe ou da mulher auxiliar nisso. Ficar clamando para que o Estado cresça e resolva seus problemas domésticos não dá. A seguir essa toada evangélica, as mulheres casam com qualquer um que catem em clínica de reabilitação e o Estado bota um policial na porta cuidando para que seja um bom marido.

Vamos ao aspecto cultural. Em países protestantes de cultura puritana (e os puritanos não eram exatamente conservadores…), a prostituição é proibida. Lá nos Estados Unidos, portanto, faria sentido um conservador perguntar: “Se nossa sociedade criou essa proibição, será uma boa ideia tirá-la assim, na mão grande?” Esse é um raciocínio conservador, e não: “Hum, proibir prostituição é careta, então vamos proibir prostituição.” Se porventura reaparecer no Brasil a pauta da proibição da prostituição (digo “reaparecer” porque as feministas tinham essa pauta na época do PT), um conservador deverá pensar, do mesmo modo: “Se nossa sociedade criou essa permissão, será uma boa ideia tirá-la assim, na mão grande?” A proibição da prostituição cumpre alguma função na ordem dos Estados Unidos; sua permissão cumpre alguma na do Brasil. Meter o bedelho do nada não é prudente.

Assim, qualquer argumento conservador contra a liberação dos cassinos deverá levar em conta o histórico e a funcionalidade dessa proibição na ordem social. Eu mesma não tenho opinião formada sobre o assunto.

Sem moicanos na Coreia do Norte

Caso alguém ainda queira insistir que conservador e careta são a mesma coisa, passo a um assunto capilar. As senhoras evangélicas da base de Damares gostariam se os seus filhos resolvessem usar um moicano verde? Aposto que não. Se houvesse um surto de moicano verde, o que essas senhoras iriam fazer?

Na Coreia do Norte, tal surto é impossível. Existe uma lista de cortes de cabelo permitidos. Todos mui caretas, naturalmente, e nenhum súdito pode usar aquele cabelinho de Kim Jong-Un.

Alguém aqui vai dizer que a Coreia do Norte é um país conservador? É um só país totalitário e careta.

(*) Bruna Frascolla é doutora em filosofia pela UFBa e autora de “As ideias e o terror” (República AF, 2020). Colabora com a Gazeta do Povo desde 2020, onde veiculou o artigo acima.

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