Entrevista com Ezequiel Maia: ’Os Waldomiros continuam por aí’, diz empresário do ramo de bingos.
‘‘Vamos atacar o Governo. Mas não será agora. Estamos à espera do melhor momento’’. A afirmação é de Ezequiel Maia, sócio-proprietário do Bingo Brasil, em Santos, e da operadora Bingonetbrasil, a maior rede de bingos da internet brasileira.
Em entrevista a A Tribuna, ele diz que a Medida Provisória 168 (MP 168) editada pelo Governo, que proibiu o funcionamento de bingos e máquinas caça-níqueis em todo o País desde o último dia 19, foi um desastre total.
‘‘Quiseram acertar um determinado setor, mas pegaram outro, que não tinha nada a ver. Os Waldomiros continuam por aí, felizes da vida’’.
Embora receptivo, durante a entrevista, Maia demonstrou-se apreensivo, algumas vezes impaciente e, quase sempre evasivo quando as perguntas tratavam sobre faturamento.
De forma incisiva, ele garante que o setor foi traído pelo Governo — a quem ele se refere como ‘‘Partido dos Traidores’’. Favorável à normatização e uma fiscalização justa, Maia é contra a sugestão das atividades serem centralizadas na Caixa Econômica Federal (Caixa).
De acordo com ele, os empresários do ramo em Santos só se sentiram respeitados quando o Ministério Público (MP) entrou com ação e fechou os estabelecimentos irregulares.
Aos 50 anos, sendo nove de bingo, diz que apostou em uma atividade que nunca foi amparada pela lei. Os cerca de 70 funcionários que trabalhavam no Bingo Brasil estão com o salário garantido para este mês. ‘‘Depois desse prazo terminar, não podemos nos comprometer’’.
Sobre a operadora Bingonetbrasil, administrada pela WJM Entretenimento e Participações Ltda, em parceria com o filho Walter Junqueira Maia, o empresário diz que a pretensão era de lançar páginas em outros países. No entanto, o projeto foi impedido pela MP 168.
A Tribuna — Há quantos anos o senhor está no ramo do bingo e qual é o seu patrimônio atual?
Ezequiel Maia — Há nove anos. Meu patrimônio hoje se resume a um apartamento e dois carros. Sou sócio-proprietário do Bingo Brasil e da Bingonetbrasil.
AT — Qual a sua opinião sobre a Medida Provisória 168 (MP 168) do Governo?
Maia — Ela foi um desastre total. Queriam acertar um determinado setor e pegaram um setor que não tinha nada a ver, que é o bingo. O bingo foi taxado como lavador de dinheiro. O bingo físico não tem nada disso. Os Waldomiros continuam por aí, felizes da vida.
AT — O senhor acredita, então, que a ação do Governo foi uma resposta ao escândalo do ex-assessor Waldomiro Diniz?
Maia — Foi, com toda certeza.
AT — O senhor conhece o Waldomiro Diniz?
Maia — Não.
AT — O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, disse que os bingos no Brasil passavam por uma situação de vácuo legal, com leis estaduais, liminares, cada uma decidindo uma coisa diferente. O senhor concorda com o ministro?
Maia — Não. Ele tem falado muito que se tiver que legalizar o jogo, terá que legalizar o tráfico de drogas, por exemplo. Só que todos os proprietários de bingo que entraram, entraram dentro de uma lei, já que havia uma lei específica para isso. Eu sou um dos que foi enganado pelo próprio Estado. Eu tinha três lojas de autopeças, me desfiz do meu negócio para investir no bingo. Ele tem falado uma coisa que não é verdade.
AT — O que aconteceu com essa lei?
Maia — Em 2002, tivemos um ano em que se deveria criar uma lei para que o bingo não se considerasse extinto. Então, realmente, no ano de 2003, existiu um vácuo na legislação, porque no Congresso não é da noite para o dia que se cria uma lei. Antes do escândalo do Waldomiro Diniz, tive em mãos o que iria ser aprovado pela Presidência para regularizar a situação. Uma proposta completamente doida e maluca, que não iria resolver em nada.
AT — O que dizia essa proposta de lei?
Maia — Era o seguinte: você tinha que pagar 10% para um fundo do Governo; 5% para a Caixa Econômica Federal; 5% para os Estados e 25% para os administradores. Sobram 55%. Desses 55%, teria que descontar mais 30% de prêmio. Então, olha o absurdo: de cada R$ 100,00 que se arrecada em uma casa de bingo, só iria sobrar para o jogador, 30%. Isso é uma extorsão. É impossível manter uma casa de bingo com 30% de prêmio.
AT — Mas, o senhor é a favor de normatizar o setor?
Maia — Sou. O que todo dono de bingo quer é fiscalização. Nunca tivemos uma fiscalização justa. Se pegar a época da Caixa Econômica Federal, tinham 1.200 bingos e só cerca de 400 tinham credenciamento. Ela só fiscalizava os credenciados, pois dizia que os outros não eram problema dela. Então, é muito fácil fiscalizar um bingo credenciado.
AT — Quanto o senhor investiu no Bingo Brasil?
Maia — Hoje já não sei mais, pois faz nove anos. São 1.400 metros de área construída. A que custo isso seria feito hoje? Fora os equipamentos. Nunca consegui recuperar esse dinheiro porque eu nunca tive um respaldo da lei. A lei nunca nos protegeu.
AT — Qual é o seu faturamento aqui?
Maia — Por incrível que pareça, vão achar que é conversa fiada, mas não é. Hoje, os custos de um bingo são muito altos. Praticamente no final do mês, sobra muito pouco. Eu só fui respeitado, ou melhor, alguns donos de bingo em Santos só foram respeitados, pela primeira vez, nos últimos cinco meses, em decorrência da ação do Ministério Público (MP), que fechou uns dez bingos. Isso aconteceu porque esses bingos não tinham funcionários registrados, mandados de segurança, regularidade fiscal. O MP deixou os sete bingos que estavam dentro da lei, organizados. Quem deu uma certa moralidade em Santos foi o MP.
AT — Mas, quanto o bingo lucrava por mês?
Maia — Não sobra mais do que um salário. Um cara que tem um investimento desse, para no final do mês tirar R$ 6 mil, é um absurdo, pelo trabalho e risco que se tem no negócio. Em 2002, eu reformei o bingo. Fiz um empréstimo para pagar. Como eu fico com essa dívida? Agora, numa canetada, acabam com o setor. E eu fico com a dívida e com os funcionários.
AT — O senhor acredita ser viável a sugestão de centralizar as atividades das casas de bingo na Caixa Econômica Federal?
Maia — A Caixa já provou que não tem competência. Pode até dar certo, se ela tiver poder de fechar quem estiver irregular.
AT — Após a MP 168 ser editada, qual foi seu posicionamento diante dos funcionários?
Maia — No Bingo Brasil, trabalhavam cerca de 70 funcionários. Nos comprometemos com a Força Sindical que garantiríamos, pelo menos, 30 dias dos funcionários. Então, eles vão receber normalmente. Depois desse prazo terminar, não podemos nos comprometer. Acredito que o Governo terá um ônus violento. Vai ser um custo altíssimo para o Estado. Eles vão ter que pagar todas as rescisões, já que eles me tiraram a responsabilidade.
AT — Qual foi a reação dos funcionários?
Maia — No dia da MP, quando era meia-noite, mandei fechar o bingo. Quando a menina anunciou a última rodada, os funcionários todos choraram. Quiseram acertar um alvo e pegaram outro, inocente. O maior problema do bingo é que nunca tivemos a proteção do Estado. Não fomos nós que trouxemos os maquineiros (caça-níqueis). O bingo estava indo muito bem, obrigado, sem isso. Fomos obrigados a aceitar o caça-níquel goela abaixo. Aí você vai me perguntar: se eu não gosto, por que eu tenho? Por causa da concorrência, para poder disputar o mercado.
AT — O senhor pretende tomar alguma atitude contra a medida do Governo?
Maia — Pretendo. Por hora, temos um acordo com a Associação Brasileira de Bingos (Abrabin) para esperar e ver uma definição. Pra mim, Maia, o PT se tornou o Partido dos Traidores. E eu explico o porquê. Ele (Lula) tinha prometido que iria regulamentar o jogo. Tanto que todos os bingueiros viraram cabo eleitoral do Lula, já que o José Serra era declaradamente contra o jogo. Por isso, vamos atacar o Governo, mas não será agora. Já estão todos trabalhando com seus advogados para ver qual é o melhor momento.
AT — Há informações de que as máquinas caça-níqueis são programadas para o apostador perder. Quanto do que se arrecada é destinado a prêmios?
Maia — São duas histórias: o caça-níquel não tem nada a ver com o vídeo-bingo, que têm laudo técnico. Os caça-níqueis são feitos com chips, controláveis. Você poderá dificultar ao máximo para que o jogador ganhe.
AT — Mas há uma porcentagem destinada aos prêmios?
Maia — O vídeo-bingo libera, geralmente, 87% a 90% daquilo que entra na máquina.
AT — E no bingo, como funciona?
Maia — Aqui, por exemplo, você paga pelo que arrecada. Retorna-se 65% menos o imposto. Seria mais ou menos 45% do que arrecadou. O que é um erro. O imposto tinha que ser menor. Se você paga mais prêmio, o jogador fica mais motivado a jogar. A tributação é a maior loucura.
AT — A sua operadora, a Bingonetbrasil, é a maior rede de bingos da internet brasileira. Há quanto tempo a WJM é responsável pelo negócio?
Maia — Há um ano e alguns meses. Passei uns dois anos para desenvolver. Contratamos uma empresa da Cidade para desenvolver o sistema. Nesses dois anos, o custo foi muito alto. Quando o PT ganhou a eleição, resolvi lançar o site, já que ele iria legitimar. No Espírito Santo havia essa modalidade de jogo. Consegui a licença para funcionar em uma loteria daquele estado. Colocamos o site no ar dentro da lei.
AT — Qual foi o seu investimento na operadora?
Maia — Até hoje, gastei muito dinheiro.
AT — Muito quanto?
Maia — A minha previsão de recuperar o lucro para a Bingonetbrasil era no final de 2005. Não é porque eu tenho um site no ar que ele é um sucesso. Ele depende de mídia.
AT — Mas, afinal, quanto, em média, foi gasto?
Maia — Eu acredito que devo ter uns R$ 600 mil investido na Bingonetbrasil. Mas, todo dinheiro que entra, retorna para o próprio negócio.
AT — Conforme o senhor informou, a WJM paga, semanalmente, entre R$ 15 mil e R$ 20 mil de Imposto de Renda. Quanto isso representa de faturamento, no final do mês?
Maia — O faturamento médio da Bingonetbrasil, hoje, está na casa dos R$ 250 mil. Só que tem os prêmios, impostos. No final, sobram R$ 30 mil, que é aquilo que eu retorno em mídia. Estava, inclusive, preparando para lançar o produto em outros países. A idéia era a de soltar páginas em inglês, espanhol, alemão. Ou seja, começar a captar recursos de fora.
AT — O senhor declarou em matéria publicada na semana passada que a MP 168 é injusta em abranger o jogo pela internet, em função dos milhares de cassinos on-line que existem. No entanto, o senhor é a favor de uma legislação para o mundo virtual?
Maia — Com certeza. Tudo que queremos é uma legislação junto com uma fiscalização. No caso do bingo físico, até hoje, fomos fiscalizados da forma errada. Para cada bingo dentro da lei existem quatro ilegais.
AT — Nessa mesma matéria, o senhor disse que retirou os sites do ar assim que a MP 168 foi anunciada. Depois de uma semana, colocou em operação novamente. O que o fez descumprir a MP 168?
Maia — Alguns advogados me falaram que a MP 168 não me abrangia por ser um jogo lotérico.
Tribuna de Santos (SP)


