Ganhadores de loteria ficam menos felizes após prêmio de US$ 5 mi, diz Harvard

Loteria I 23.05.26

Por: Magno José

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Ganhadores de loteria ficam menos felizes após prêmio de US$ 5 mi, diz Harvard
Professor Michael Norton revela que casal perdeu felicidade ao sair da comunidade onde vivia após ganhar prêmio milionário, segundo pesquisa apresentada (Foto: Reprodução Youtube)

Michael Norton, professor da Harvard Business School, apresentou estudos sobre a relação entre dinheiro e felicidade durante o Fórum de Bem-Estar Financeiro do Sicredi. Os dados demonstram que receber quantias elevadas não garante aumento no bem-estar. Norton é autor de “Dinheiro Feliz – A Arte de Gastar com Inteligência” e aplica ciência comportamental para analisar saúde financeira.

O professor mostrou resultados de investigações com ganhadores de loteria que desafiam a crença de que mais dinheiro produz automaticamente mais felicidade, conforme reportagem do Valor. Em diversos casos analisados, pessoas que receberam prêmios milionários não registraram elevação nos níveis de bem-estar. Os estudos indicaram que mudanças radicais no estilo de vida provocadas pelo dinheiro podem causar impactos negativos.

“Analisamos um casal que ganhou US$ 5 milhões e eles ficaram menos felizes. Muitas vezes as pessoas compram uma casa nova, mas aí saem da comunidade onde estavam inseridas, eram felizes. Às vezes os casais se divorciam. Então o que importa é como aquilo muda a sua vida no dia a dia”, declarou Norton.

O pesquisador identificou que o impacto do dinheiro no bem-estar depende fundamentalmente de como ele altera a rotina diária. O montante recebido tem importância secundária.

Diferenças entre comprar produtos e experiências

As investigações de Norton mostram que adquirir bens materiais, como casas ou carros, não gera impacto significativo na felicidade. “Eventualmente o telhado da casa vai ter um vazamento, ou você vai estar no seu lindo carro novo, mas preso no trânsito”, afirmou.

Os estudos apontam que investir em experiências, como viagens ou jantares especiais, e fazer doações para outras pessoas produz efeitos mais intensos e duradouros no bem-estar. A pesquisa identificou diferenças entre gastar em produtos versus experiências, tanto antes quanto depois do gasto.

Antes da compra, pessoas que adquirem produtos experimentam ansiedade e frustração enquanto aguardam a entrega. Quem planeja uma viagem tende a sentir animação com a antecipação da experiência.

Após o gasto, produtos envelhecem e perdem valor ao longo do tempo. As experiências apresentam padrão oposto: as lembranças tornam-se mais positivas com o passar dos anos.

“É por isso que, se você perguntar na semana seguinte para uma pessoa como foi a lua de mel dela, ela vai dizer que foi ‘ok’, mas se você pegunta um, cinco, dez anos depois, elas dizem que foi o momento mais lindo da vida delas, ou porque tanta gente mais velha diz que a faculdade foi a melhor época das suas vidas”, explicou Norton.

Projetos com instituições financeiras

A equipe de Norton desenvolveu projetos aplicando os resultados das pesquisas. Em parceria com o aplicativo de gestão financeira HelloWallet, foram enviados diferentes tipos de mensagens para incentivar clientes a abrir contas de investimento. Mensagens com o texto “poupe para sua próxima experiência” obtiveram desempenho superior a apelos como “poupe para comprar esse ou aquele produto”.

O professor trabalhou na questão das dívidas em projeto com o Commonwealth Bank of Australia. A equipe modificou a interface do aplicativo para pagamento de faturas de cartão de crédito.

No modelo anterior, o usuário visualizava a fatura completa e escolhia entre pagar o valor total ou o mínimo. Na nova versão, o cliente pode selecionar e pagar cada gasto individualmente. Conforme o usuário paga uma compra específica, como em uma cafeteria, ela desaparece da tela.

“Isso transforma aquilo em uma ‘experiência’, dá uma sensação para a pessoa de que ela fez algo com aquela dívida, está fazendo progresso. Fizemos até alguns experimentos em que, ao pagar uma compra dentro daquela fatura do cartão, ela literamente explode na tela, é eliminada. E os resultados foram ainda melhores”, declarou o pesquisador.

Teste em Vancouver sobre gastos com outras pessoas

Os cientistas realizaram um experimento em Vancouver, no Canadá, para testar como diferentes formas de gastar dinheiro afetam o bem-estar. Dois grupos receberam envelopes com dinheiro. Um grupo deveria comprar algo para si mesmo. O outro grupo só poderia gastar com outra pessoa ou fazer uma doação.

“No fim do dia, quem gastou consigo mesmo não estava mais feliz do que o normal. Muita gente comprou um café. Para quem toma dez cafés por dia, um a mais não faz diferença. Mas quem doou, tende e ficar mais feliz”, explicou o pesquisador.

A pesquisa também identificou aplicações práticas para o varejo. Em um projeto desenvolvido em parceria com a rede varejista Crate&Barrel, os clientes podiam escolher após a compra entre duas opções: um cupom de desconto para a próxima aquisição ou um voucher para fazer uma doação para uma instituição filantrópica.

“Os que fizeram a doação tendem a dizer que a empresa reflete melhor seus valores. Então isso leva a clientes mais leais, que vão consumir mais ali”, afirmou o pesquisador.

Norton destacou o potencial de aplicação da psicologia no comportamento financeiro. “Existem muitas oportunidades de como podemos usar a psicologia para alterar a forma como as pessoas lidam com dinheiro, e como empresas desenham produtos e serviços.”

 


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