Jogo do Bicho completou 129 anos de operação no dia 3 de julho

Destaque I 02.07.21

Por: Elaine Silva

Compartilhe:
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
Rascunho automático 2
Magnho José e Carlos André de Oliveira Esberard*

Neste sábado, dia 3 de julho, o jogo do bicho completa 129 anos de operação, considerado o sistema de loteria mais popular do Brasil. O primeiro sorteio ocorreu num domingo, em 3 de julho de 1892 e o bicho sorteado foi o avestruz.

O jogo surgiu junto com a jovem República brasileira. No início praticado de forma inocente como marketing, acabou crescendo e virando um mercado paralelo que movimenta bilhões de reais todos anos, mesmo com críticos e admiradores. Atualmente, o jogo faz parte da cultura popular e ajuda a financiar eventos culturais como as Escolas de Samba do Rio de Janeiro.

A primeira versão do jogo do bicho surgiu no final do século 19 quando o Barão João Batista de Drummond precisava de algo para estimular a visitação ao zoológico de Vila Isabel. O Barão era um homem empreendedor, considerado a frente do seu tempo e conhecido por ter libertado todos os seus escravos anos antes da abolição, mas precisava desesperadamente de mais dinheiro para salvar o parque.

Drummond adaptou a ideia da Loteria das Flores do mexicano Manuel Ismael Zevada e para motivar o público, começou a fazer um sorteio diário. Era colocada a imagem de um dos bichos numa caixa pela manhã e no final da tarde era anunciado para os visitantes o animal tinha sido sorteado. Assim nascia do ‘brasileiríssimo’ jogo do bicho. Sobre a preferência pelos bichos, o Barão disse na época ao Diário do Commércio: “Flores são lindas. Mas animais são subúrbios do homem, nossos parentes”.

O ingresso vinha com a imagem de um animal em um universo de 25 bichos que havia no zoológico, aquele que tivesse o animal estampado no ingresso ganhava. Esse sistema era importante pois o orçamento do zoológico havia sido reduzido pelo governo e, sem um incremento na visitação, os animais iriam passar fome e a rifa solucionou o problema.

Quem tivesse o ingresso com o mesmo bicho da caixa levava um prêmio em dinheiro até 20 vezes maior que o ingresso. O valor representava mais do que um trabalhador de baixa renda ganhava em um ano de serviço e, portanto, chamava a atenção da população que começou a comentar e a frequentar o zoológico. A rifa acabou fazendo tanto sucesso, que atraiu mais atenção do que o próprio zoológico.

Logo, o jogo foi se tornando mais dinâmico e os visitantes tiveram a oportunidade de escolher os animais em que iam apostar. As superstições populares foram se tornando parte das apostas, pois sonhos ou presságios que as pessoas tinham acabavam estimulando-as em suas escolhas. A rifa logo virou uma mania, com os bilhetes sendo vendidos em loja pela cidade e não apenas no zoológico, as lojas da cidade investiram na ideia e começaram a realizar sorteios paralelos ao feito pelo Barão. A loteria era tão popular que todo dia uma multidão se reunia para ouvir o resultado e os bondes faziam trabalho extra para atender a população.

O alcance da diversão era tanta que mesmo o presidente Marechal Floriano Peixoto foi visitar o zoológico para ver o sorteio. Mas a moda logo criou inimigos, uma campanha foi iniciada nos jornais para combater o jogo, apenas 19 dias após ter sido criado, o jogo do bicho já tinha seus críticos acusando-o de ser uma ameaça a moral pública.

O grande problema da rifa é que ela era vista como um jogo de azar e, portanto, condenada pela moral e bons costumes daquela época. Como consequência a prática foi reprimida pelo governo da época já no final da década de 90 do século 19, mas era tarde demais, já tinha se tornado muito querida pelas pessoas para ser restringida. Ainda assim a atividade flutuou entre a proibição e liberdade pelas décadas seguintes, meio a margem da sociedade, mas bem popular.

Um dos motivos do sucesso do jogo foi porque ele permitia que pessoas com pouco dinheiro apostassem só algumas moedas, como a pobreza era grave na época, era uma forma de entretenimento barata para as pessoas. Como certos números se tornaram muito populares por causa de certos simbolismos (o número do túmulo de Getúlio Vargas por exemplo), foi criado um limite de apostas para impedir que os bicheiros falissem. Um dos motivos pelo qual era popular, se devia ao fato de ser uma das poucas atividades sem distinção de classe na sociedade do começo do século 20. O que alimentava seu caráter popular.

Em 3 de outubro de 1941, o Decreto-Lei nº 3.688 do presidente Getúlio Vargas, tornou o jogo ‘contravenção penal’ e as apostas cresceram mais ainda. A proibição contrastava com a atitude do governo em relação aos cassinos, provavelmente movido por um moralismo político que era forte na época, ligado a defesa da moral e dos bons costumes.

Este ano completa 80 anos de proibição e o fato não alterou o cenário de ilegalidade do jogo no Brasil, pelo contrário. A proibição não foi assimilada pela sociedade e a lei acabou indiretamente ajudando os responsáveis pelas apostas.

Apesar de ser uma contravenção penal, sendo passível de multa e até prisão, apostar no jogo do bicho não é considerado crime, sendo uma infração menos grave.

A essência e a forma do jogo continua sendo a mesma desde a época do Barão de Drummond, com os mesmos 25 animais, entretanto agora ele é feito a partir dos sorteios regionais e pela Loteria Federal. Cada um dos animais corresponde a 4 números de 00 a 99. Há várias formas de apostar e o prêmio recebido depende da dificuldade de cada aposta.

A popularidade do jogo cresceu tanto que entrou na cultura popular e expressões do dia a dia foram se formando, como a famosa “deu zebra” que significa acontecer algo impossível. Foi do jogo do bicho que se originou a associação entre o número 24 e a homossexualidade, pois no jogo 24 é um dos números do veado.

Em 1958 o jogo do bicho chegou a ser legalizado no estado do Rio de Janeiro, pelo governador Roberto Silveira, que liberou a prática desde que repassando verbas para ações sociais. Mas durante o governo de Jânio Quadros o jogo voltou a ser proibido em território nacional.

A Paraíba se tornou o único estado a permitir o jogo do bicho. Castelo Branco teria pedido ao governador da época para proibir o jogo no estado também, mas o governador se recusou pois faltaria empregos para a população.

Na década de 30 o jogo do bicho assumiu uma parceria com o Carnaval. A primeira pessoa a associar os dois foi o bicheiro Natal da Portela, que criou um bloco de carnaval chamado “Vai como pode”, que seria o embrião da escola de Samba da Portela. Natal trabalhavam como condutor de trem, mas após perder um dos braços em um acidente acabou sendo demitido, para sobreviver virou bicheiro, acabou subindo na nova profissão e se tornou dono do próprio negócio. Quando um amigo próximo também admirador de samba morreu, Natal decidiu investir na Portela como forma de homenageá-lo.

Natal criou a figura do bicheiro patrocinador do samba. Logo os outros bicheiros também começaram a fazer o mesmo atrás de mais aprovação do público. A parceria com o jogo do bicho permitiu ao Carnaval do Rio de Janeiro prosperar, até aquele ponto uma festa mais popular, o dinheiro do jogo fez a celebração se tornar querida mesmo entre as classes mais altas. Em 1976, após a morte de Natal, acabou sendo homenageado em um desfile, mas não pela Portela, mas pela rival Beija-Flor.

O mercado do jogo tornou-se lucrativo que mesmo proibido estima-se que movimente cerca de R$ 12 bilhões anualmente. A atividade emprega mais de 400 mil pessoas no país. Como Natal, alguns bicheiros se tornaram figuras lendárias da cultura carioca, o mais famoso foi Castor de Andrade que ganhou o apelido de “Doutor Castor”, sendo considerado o maior bicheiro do Rio de Janeiro.

Em 1911, o jurista e acadêmico José Macedo Soares, observou que o jogo se radicara a tal ponto nos hábitos sociais do brasileiro que era impossível erradicá-lo pela lei e repressão policial. O conceito da manifestação do jurista de 109 anos atrás nunca esteve tão atual.

“O jogo proliferou e criou raízes tão profundas, que não será certamente a golpes de lei ou de arbitrariedades policiais que o poder público poderá extirpá-lo dos nossos costumes”.

Seguindo a tendência de outros países, a legalização deveria garantir a manutenção desta modalidade com os atuais operadores. O jogo do bicho tem peculiaridades próprias que devem ser levadas em conta na sua legalização: jogo bancado com riscos e com muita capilaridade. Além disso, o Estado teria dificuldades em fazer concorrência com uma modalidade que está em operação há muitos anos no Brasil.

Atualmente, cerca de 90% das apostas do jogo do bicho são realizadas através de POS (do inglês: Point of Sale ou Point of Service) dispositivos semelhantes as máquinas de pagamento de cartões de crédito ou em tablets.

Mesmo em outra plataforma, ainda ‘vale o que está escrito’.

(*) Magnho José é editor do BNLData e Carlos André de Oliveira Esberard é graduando em jornalismo pela UFF-Niterói (Fontes: BBC, Wikipedia, Super Abril, O Jogo do Bicho, Isto É, Revista Galileu e R7)

Comentar com o Facebook