Na roda do bingo.

Bingo I 29.09.03

Por: sync

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Viúva há dois anos, Sylcéa Ramos Chaves descobriu uma maneira de deixar suas tardes mais animadas: vai ao bingo que foi inaugurado perto de casa. Encontra amigos, passa duas horas entre jogadas e bate-papos, até anoitecer. – O bingo para mim é uma válvula de escape. Vou mesmo quando não tenho companhia, porque sempre encontro uma turminha animada para conversar – conta.
Até pouco tempo, uma Kombi do estabelecimento apanhava senhoras em casa e depois as levava de volta, uma cortesia para estimular a freqüência. A aposentada aproveitava a carona, e também os lanches entre uma partida e outra. Mas a mordomia foi suspensa. – Como os serviços eram gratuitos, muita gente ia ao bingo não para jogar, mas sim para desfrutar das pastinhas, torradas e sucos. A Kombi sempre ia cheia, mas percebi que só eu e uma amiga jogávamos. A velharada só ia mesmo para comer – lembra Sylcéa, rindo. Atualmente funcionam no Estado 39 casas de bingo. A atividade gera cerca de 8 mil empregos diretos e 24 mil indiretos, e repassa R$ 3 milhões mensais à Loterj, fora os 7% destinados a entidades esportivas.
O público da terceira idade é o que mais contribui para esse faturamento. Segundo o gerente do Bingo Botafogo, 80% dos clientes são pessoas com mais de 65 anos. Desses, 60% são senhoras. – Fico no salão e converso com elas. O jogo funciona como uma terapia – diz. É assim que se sente a professora universitária Ana Rodrigues*, de 66 anos. Todo sábado sai de casa com o dinheiro contado para as apostas. Já ganhou um carro e R$ 6 mil. – Uma amiga gasta R$ 300 por mês com analista. Eu venho para o bingo e de quebra ainda ganho alguns prêmios – diz Ana, que garante não misturar o dinheiro do bingo com as despesas de casa.
Ana sabe que se trata de sorte. Quando joga dez partidas direto, sem ganhar nada, vai embora para só voltar noutro dia. Mas às vezes os números são favoráveis, como no dia em que ganhou a quantia exata que estava querendo para fazer um cruzeiro. Os idosos são maioria, mas têm companhia. Durante quase dois anos, a estudante de Comunicação Renata de Almeida, 23 anos, passava boa parte do tempo entre máquinas e cartelas. – Gostava de observar as pessoas. Já vi marido e mulher brigando, gente batendo nas máquinas. Conheci meu ex-namorado durante uma partida da Copa a que fui assistir no bingo.
Hoje não vou mais porque vi a minha conta bancária parar no negativo – conta Renata, que, no intervalo entre algumas derrotas, tirou um carro. Algumas das situações mais inusitadas que já presenciou aconteceram em salas de jogo. Como a história de um sujeito que anunciava bingo toda hora. Não por sorte, mas para fazer graça e assustar os outros jogadores: – Um senhor acompanhado da esposa pediu a ele que parasse com a brincadeira, porque a mulher era cardíaca. O cara gritou bingo mais uma vez, e ela enfartou.
Chamaram a ambulância, e o brincalhão acabou apanhando do marido. Renata, que já sonhou com números pulando cerca e acordou sobressaltada gritando bingo, tem uma versão de brinquedo em casa, para jogar com amigos. – Mas sem apostar dinheiro – ressalta. O tal jogo é fabricado pela Sonata, em São Paulo, e está no mercado há oito anos. Segundo a gerente comercial, Érica Quesada, são vendidas a cada mês cerca de 7 mil unidades. No segmento de jogos da fábrica, o brinquedo é o carro-chefe.
– Ele é para crianças a partir de 5 anos, mas é muito usado por famílias e em festinhas, quermesses…
– conta. Mas o jogo oficial pode virar coisa séria, como aconteceu com o executivo Marcelo Matos*, de 51 anos, que se tornou um jogador compulsivo. – Começou natural, de brincadeira. Aí passei a ganhar e aumentei o valor da aposta e a freqüência com que jogava. Fui do lúdico ao obsessivo – conta.
Em dois anos Marcelo se viu totalmente endividado. Funcionários do bingo chegaram a alertá-lo sobre a falta de limites. Com o vício, vieram os empréstimos e o afastamento da família.
– O casamento de 23 anos quase aca- bou, os filhos não falavam mais comigo e eu ainda inventava desculpas para jogar. Depois de procurar terapia, aconselhado pela mulher, Marcelo foi a uma reunião dos Jogadores Anônimos. Lá, viu que seu problema era igual ao de muitos outros. O executivo freqüenta as reuniões há nove meses. Passou para a mulher os cartões de banco – ela controla as contas e despesas – e conseguiram pagar 60% das dívidas.
O J.A., fundado no Brasil em 1957 para ajudar pessoas viciadas em qualquer tipo de jogo, segue a teoria dos 12 passos, também adotada pelos Alcoólicos Anônimos. O primeiro é: não jogar só por hoje. – Estou conseguindo fazer isso e reconstruindo a minha vida ao lado da minha família – comemora Marcelo. De cinco anos para cá, não há uma reunião em que não apareça um novo integrante. E, de cada 20 que chegam, 19 são viciados em bingo. Segundo o presidente do J.A., Alexandre Oliveira*, existem três tipos de jogadores: o lúdico, que gasta o dinheiro reservado e vai embora; o impulsivo-compulsivo, que é arrebatado para o jogo e só sai quando perde tudo; e o jogador patológico.
– Este é o mais perigoso, só pensa em jogo e nada mais na sua vida tem graça. O problema é que, sem perceber, passa-se de um estágio a outro – diz. Isso é clinicamente chamado de adicção: quando a pessoa perde o controle sobre a própria vida por se dedicar totalmente a alguma coisa. Segundo o psicólogo João Marcos Ferreira Terra, os adictos são 10% da população. Formas mais comuns de dependência são bebida, sexo, trabalho e jogo. João Marcos indica a psicoterapia e os grupos de apoio mútuo, como o J.A..
O tratamento dura de três a cinco anos, tempo em que o doente aprende a lidar com a dependência. – É como descobrir que se é alérgico a alguma coisa. É preciso aprender a viver bem sem aquilo.Jornal do Brasil – Revista de Domingo –  Fernanda Zambrotti 

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