PF prende chineses donos de fintech que processava R$ 260 bi de apostas clandestinas

Blog do Editor I 17.04.26

Por: Magno José

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Xizhangpeng Hao, Sun Chunyang e Jiawei Lin tiveram prisão temporária decretada por 30 dias; Golden Cat é investigada por lavagem de dinheiro e evasão de divisas

Três empresários chineses que comandavam a fintech Golden Cat Processamento de Pagamento Ltda foram presos temporariamente pela Polícia Federal. A empresa é investigada por lavagem de dinheiro e evasão de divisas em esquema que envolve os cantores MC Ryan SP e MC Poze do Rodo. A operação foi deflagrada nesta semana em nove estados brasileiros, registra O Globo.

Xizhangpeng Hao, Sun Chunyang e Jiawei Lin tiveram prisão temporária decretada por 30 dias. O juiz Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5ª Vara Federal de Santos, expediu os mandados.

Mais de 200 policiais federais cumpriram 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária. Do total de mandados de prisão, 33 foram cumpridos. As diligências aconteceram em São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e no Distrito Federal. Ao todo, 84 ordens judiciais foram expedidas na Operação Narco Fluxo.

Fintech processava recursos de apostas clandestinas

A Golden Cat processava recursos provenientes de plataformas clandestinas de apostas, segundo as investigações. A fintech recolhia o capital dos apostadores e processava centenas de milhões de reais que alimentavam a organização criminosa. A empresa viabilizava a saída ilegal de dinheiro do país. Documentos da 5ª Vara Federal de Santos indicam que a Golden Cat concentrava valores arrecadados por plataformas clandestinas de apostas e viabilizava o envio ao exterior. O volume transacionado pela organização teria ultrapassado R$ 260 bilhões.

O juiz Roberto Lemos dos Santos Filho identificou a Golden Cat como “coração financeiro” e “eixo central” da estrutura criminosa. A companhia recebia o dinheiro ilícito e o distribuía para dificultar o rastreamento pelas autoridades.

As quebras de sigilo realizadas pela investigação apontaram Xizhangpeng Hao como o atual controlador das operações da Golden Cat. Ele assumiu a posição que anteriormente pertencia a Sun Chunyang. As quebras de sigilo apontam que Hao e Chunyang estruturaram a infraestrutura que recebia e redistribuía valores pulverizados por apostadores e sites ilegais.

Jiawei Lin atuava como peça fundamental na evasão de divisas. Ele era o destinatário final das remessas feitas pelas intermediadoras e operava a conexão com os proprietários estrangeiros que comandavam as plataformas de jogos de azar fora do Brasil. A Justiça autorizou a prisão temporária dos três empresários chineses, apontando Lin como responsável por conectar as remessas a operadores das bancas fora do país.

Não é a primeira vez que os estrangeiros aparecem em investigações no Brasil. Em 2024, Sun Chunyang foi alvo da Operação Desfortuna, da Polícia Civil do Rio de Janeiro, que investigou a promoção irregular de jogos de azar online, como o “Jogo do Tigrinho”. Dois anos antes, durante a CPI da Manipulação de Partidas de Futebol, Chunyang e Hao foram citados em discussões sobre o mercado clandestino de apostas, mas não foram convocados a depor.

Ambos também aparecem vinculados à Cash Pay Meio de Pagamento, registrada no mesmo endereço da Golden Cat em São Paulo, o que reforça a hipótese de conexão entre estruturas usadas para processar recursos de plataformas ilegais.

Transferências para terceiros e funkeiros investigados

O esquema incluía a transferência de valores elevados para “laranjas” e empresas vinculadas à estrutura criminosa. Letícia Feller Pereira, alvo da operação, recebeu repasses multimilionários feitos diretamente pela fintech controlada pelos chineses.

MC Ryan SP foi identificado pelas apurações como “líder e beneficiário econômico da engrenagem”. As investigações indicam que o cantor e o grupo de chineses participavam de diferentes etapas do mesmo ciclo de lavagem de capitais. O influenciador Mateus Magrini Santana, irmão de Ryan, também foi preso sob suspeita de atuar na recepção de valores e na divulgação de plataformas de apostas.

A rede ligada ao funkeiro atuaria na captação de recursos e na ocultação do dinheiro no Brasil. A estrutura corporativa gerida pelos chineses processava esse volume de capital para garantir sua circulação, distanciamento da origem e envio internacional. Segundo a PF, artistas e empresários brasileiros atuavam na captação e circulação dos recursos, enquanto a estrutura corporativa controlada pelos estrangeiros garantia a internacionalização do dinheiro.

MC Poze do Rodo também foi alvo de mandado de prisão preventiva. Ele aparece vinculado a empresas e estruturas financeiras relacionadas à circulação de recursos oriundos de rifas digitais e apostas.

Nas primeiras diligências, a operação atingiu em cheio a indústria do funk. Além de artistas, donos das produtoras GR6 e Love Funk — já citadas em investigações por suspeitas de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) — foram alvo de mandados de prisão e bloqueio de bens. Para os investigadores, empresas do meio musical teriam sido usadas para misturar receitas legítimas com dinheiro ilícito, permitindo a movimentação de grandes quantias sem provocar alerta imediato.

O proprietário da página “Choquei”, Raphael Sousa Oliveira, foi identificado como operador de mídia da organização. Segundo as apurações, ele estava “recebendo altos valores diretamente […] Sua função consiste, em tese, na divulgação de conteúdos favoráveis ao artista e na promoção de plataformas de apostas e rifas, além de potencialmente atuar na mitigação de crises de imagem relacionadas às investigações”. O influenciador e empresário Chrys Dias também foi preso na operação.

Os artistas, assim como produtores de funk e influenciadores, são apontados como parte do esquema de lavagem de dinheiro que teria movimentado cerca de R$ 1,6 bilhão em 24 meses. As investigações indicam que o grupo utilizava a “instrumentalização de pessoas físicas”: artistas e influenciadores com grande circulação financeira eram usados para movimentar valores sem despertar suspeitas.

O dinheiro ilícito era apresentado como pagamento por publicidade, shows e contratos comerciais, permitindo a aquisição de imóveis, joias e veículos de luxo e a ostentação nas redes sociais, usada como vitrine para atrair novos apostadores. A estrutura incluía transferências fracionadas (smurfing), uso de laranjas, empresas de fachada e criptomoedas como o USDT para remessas internacionais.

Justiça determina sequestro de bens e bloqueio de criptoativos

O juiz Roberto Lemos dos Santos Filho determinou o sequestro imediato dos bens de todos os envolvidos. A medida inclui imóveis, veículos de luxo e saldos bancários. A decisão considerou o risco de destruição de provas e dissipação do patrimônio bilionário.

O magistrado ordenou o bloqueio de contas mantidas em corretoras de criptoativos. As plataformas Binance, Mercado Bitcoin e Foxbit tiveram contas congeladas tanto em nome dos três investigados quanto no CNPJ da Golden Cat. A Justiça determinou o bloqueio de contas bancárias e criptoativos, além do sequestro de imóveis e outros bens.

As autoridades apreenderam veículos, valores em espécie, documentos e equipamentos eletrônicos durante o cumprimento das ordens judiciais. Um fuzil também foi recolhido. Os materiais apreendidos devem subsidiar o aprofundamento das investigações. Entre os bens sequestrados estão veículos avaliados entre R$ 4,8 e R$ 6,9 milhões, incluindo Land Rover Defender, Porsche Panamera Turbo S, Porsche 911, Porsche Cayenne, Mercedes-Benz Classe C e BMW X1.

Prisões mantidas

A 5ª Vara Federal de Santos manteve MC Ryan SP, MC Poze do Rodo e demais alvos de operação da Polícia Federal em prisão temporária, após eles passarem por audiência de custódia. A única exceção foi a influenciadora digital Débora Paixão, mulher de Chrys Dias e também alvo da operação, para quem foi determinada a prisão domiciliar, com monitoramento eletrônico.

Em nota, a Justiça Federal informou que “ao todo, 33 investigados foram apresentados à Justiça, no âmbito das medidas diligenciadas pelas autoridades competentes”. “Demais pedidos ainda pendentes de apreciação serão analisados posteriormente, após a oitiva da Polícia Federal e do Ministério Público Federal (MPF), conforme o trâmite legal”, acrescentou, informando que o caso tramita “sob sigilo absoluto, com acesso restrito às partes envolvidas”.

Investigação começou com apreensão de drogas em veleiro

A Operação Narco Fluxo representa um desdobramento da “Operação Narcobet”, realizada no final de 2025, e da “Operação Narcovela”, executada em abril de 2025. As investigações tiveram início com uma apreensão de drogas em um veleiro em 2023.

A Polícia Federal identificou a conexão entre as atividades de lavagem de dinheiro e as plataformas clandestinas de apostas durante as apurações sobre tráfico internacional de drogas. A Operação Narco Fluxo é desdobramento de investigações iniciadas após a apreensão de drogas em um veleiro em 2023 e de fases anteriores que já haviam identificado a atuação do grupo em esquemas de lavagem ligados ao tráfico internacional.

Os envolvidos poderão responder pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, com penas que podem chegar a 20 anos de prisão.

Defesas negam irregularidades

As defesas dos acusados afirmam não ter tido acesso integral ao processo e negam irregularidades, afirmando que as transações citadas são lícitas, que os valores têm origem comprovada e que os tributos foram recolhidos.

A defesa de MC Poze do Rodo informou em nota que “desconhece os autos ou teor do mandado de prisão” e que “com acesso aos mesmos, se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário”.

Os advogados da GR6 e do empresário Rodrigo Inácio de Lima Oliveira, que também foi alvo de mandado de prisão, afirmaram que os valores e transações financeiras mencionados referem-se a “relações comerciais lícitas e regulares, inerentes à atividade empresarial da companhia, todas devidamente formalizadas e respaldadas por contratos e documentação fiscal”.

“A GR6 e seu sócio reiteram que não houve a prática de qualquer ato ilícito e seguem à disposição das autoridades competentes, colaborando integralmente com a investigação e prestando os esclarecimentos necessários”, escreveram.

A defesa de Raphael Sousa sustenta que ele não integra organização criminosa e atua apenas com publicidade digital. A defesa da Love Funk e de Henrique Viana afirmou que ele é um “empresário respeitado nacionalmente na indústria musical”, que “sempre esteve à disposição” e “se manifestará nos autos tão logo tenha acesso integral à investigação, adotando as medidas cabíveis”.

 

 

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