Polymarket é exposta por campanha de vídeos de apostas falsas nos EUA

Apostas I 02.07.26

Por: Magno José

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Pesquisa identifica 25% de negociações fictícias na Polymarket e revela padrões suspeitos em 14% das carteiras
Reportagem do Wall Street Journal revela que plataforma financiou influenciadores para simular ganhos e enganar público-alvo com valores fictícios de até US$ 1,9 mi

A Polymarket, plataforma americana de mercado de previsão, financiou uma campanha de marketing baseada em vídeos de apostas e vitórias fabricadas para promover a empresa nas redes sociais. A prática foi exposta por uma reportagem investigativa do Wall Street Journal publicada nesta quarta-feira (2/7).

A investigação do WSJ analisou 1.105 vídeos publicados por dez criadores de conteúdo endossados pela Polymarket entre dezembro de 2025 e meados de maio de 2026. Em 70% das gravações, os criadores simulavam apostas que, na prática, nunca foram realizadas; somadas, essas apostas fictícias totalizavam US$ 1,9 milhão (R$ 9,9 milhões), segundo o jornal.

Apostas falsas e perdas reais

Do total de vídeos analisados, 118 mostravam criadores reagindo a fatos desatualizados ou falsos para sugerir que haviam lucrado com apostas. Nesses vídeos, os valores exibidos como ganhos chegavam a quase US$ 900 mil (R$ 4,7 milhões). Se as apostas fossem reais, porém, os criadores teriam acumulado perdas superiores a US$ 166 mil (R$ 866 mil), conforme apurado pelo WSJ.

Para viabilizar a campanha, a Polymarket desenvolveu cópias quase idênticas de seu próprio site, usadas pelos criadores durante as gravações. O jornal identificou diferenças entre as versões falsas e o site original, como erros de digitação em URLs e botões da plataforma. Um dos sites falsos foi retirado do ar após o WSJ contatar a empresa.

Os criadores recebiam orientações detalhadas sobre como filmar as simulações e foram instruídos a não revelar que eram pagos pela empresa. A remuneração variava entre US$ 2.000 e US$ 3.000 mensais (R$ 10 mil a R$ 15 mil), de acordo com fontes com conhecimento dos contratos. Vídeos considerados pouco atraentes ou com falhas evidentes eram devolvidos para novas gravações.

A Polymarket também contratou uma agência para amplificar o alcance dos vídeos. A estratégia de redistribuição do material era executada por adolescentes da Ásia por meio de contas falsas nas redes sociais. Os criadores foram ainda orientados a manter distância visível da marca, evitando mencionar a Polymarket em seus nomes de usuário. Depois que o jornal procurou a empresa, os perfis dos criadores passaram a exibir “@polymarket partner”.

O jornal cita o caso do universitário George Makihara como exemplo da campanha. Em janeiro de 2026, ele publicou um vídeo em que aparecia ganhando US$ 100 mil em uma aposta sobre se o presidente Donald Trump diria publicamente a palavra “McDonald’s” naquele mês. O evento nunca ocorreu; mais de 50 contas que fizeram a mesma aposta no site real da Polymarket perderam dinheiro, segundo o WSJ. Makihara não respondeu ao jornal.

Incentivo ao uso de informação privilegiada

Além dos vídeos de apostas falsas, o WSJ revelou que a Polymarket e a agência Virality patrocinaram conteúdos sobre a facilidade de operar com informações privilegiadas. O influenciador Adin Ross, conhecido na chamada “machosfera” e detentor de um contrato multimilionário com a plataforma, abordou o tema em pelo menos cinco vídeos. Em um deles, patrocinado pela empresa, Ross comentou que poderia usar informações privilegiadas para apostar na data de lançamento de um novo álbum do cantor Drake. Representantes de Ross e Drake se recusaram a comentar.

Em resposta ao WSJ, a Polymarket afirmou que planeja realizar uma auditoria abrangente do conteúdo promocional ativo. A empresa declarou estar “comprometida em manter mercados precisos, justos e transparentes. Fazemos parte de uma indústria em rápido crescimento e estamos constantemente avaliando formas de melhorar como nos relacionamos e conquistamos a confiança do nosso público”. A empresa também afirmou que “proíbe negociações baseadas em informações roubadas, dicas ilegais ou informações obtidas em violação de um dever de confiança, confidencialidade ou outra obrigação legal”.

Investigações e ação judicial

A publicação da reportagem gerou reações institucionais nos Estados Unidos. Dois senadores pediram uma investigação federal à CFTC (Commodity Futures Trading Commission) sobre a promoção de apostas falsas nas redes sociais. Uma fonte com conhecimento do assunto disse ao WSJ que a CFTC já investiga a Polymarket, embora o objeto da investigação não tenha sido identificado; o órgão se recusou a confirmar a existência do processo. Um porta-voz da Federal Trade Commission, responsável pela aplicação das leis de publicidade nos Estados Unidos, também recusou comentários, citando a política da agência de não se manifestar sobre potenciais investigações.

Na sexta-feira (26/6), um grupo de defesa do consumidor entrou com ação judicial contra a Polymarket, o CEO Shayne Coplan e o diretor de marketing Matthew Modabber. A alegação é de que a empresa direcionou publicidade enganosa a estudantes universitários, persuadindo-os a realizar negociações enquanto ocultava a probabilidade de perdas financeiras.

 


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