A nova corrida do iGaming não é por usuários. É por confiança

No início, o sucesso no iGaming foi medido principalmente pela capacidade de atrair usuários, expandir operações e aumentar receitas. Essa lógica ajudou a transformar o setor em uma das atividades mais dinâmicas da economia digital. Mas os sinais observados hoje indicam que essa fase ficou para trás.
O crescimento continua importante. A inovação segue sendo um dos motores da indústria. O interesse dos investidores permanece elevado. No entanto, a discussão que domina os principais fóruns internacionais já não está centrada apenas na expansão. A pergunta que passa a orientar o futuro do setor é outra: quem conseguirá construir relações de confiança duradouras com usuários, reguladores, parceiros e a sociedade?
Essa foi, na minha avaliação, a principal conclusão do SBC Summit Americas, um dos mais relevantes encontros da indústria nas Américas. Ao longo dos debates, ficou evidente que o iGaming entrou em uma nova etapa, marcada por temas como conformidade regulatória, proteção ao usuário, segurança financeira, governança de dados, prevenção a fraudes, inteligência artificial e sustentabilidade das operações.
A mudança é natural. À medida que a atividade amadurece e se torna mais relevante economicamente, cresce também a responsabilidade das empresas que participam desse ecossistema. Não por acaso, compliance deixou de ser uma área de suporte para ocupar posição estratégica dentro das organizações. O mesmo acontece com prevenção à lavagem de dinheiro, validação de identidade, monitoramento transacional e mecanismos voltados à integridade das operações. O que antes era tratado como obrigação regulatória passa a ser encarado como elemento central da competitividade.
A América Latina representa um retrato claro dessa transformação. A região reúne mercados em diferentes estágios de desenvolvimento, cada um com características próprias e desafios específicos. Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição singular. Poucos países concentram simultaneamente uma base tão ampla de usuários, um sistema de pagamentos digitais tão avançado e um ambiente regulado em construção. Essas características colocaram o país no centro das atenções da indústria global. Hoje, operadores, fornecedores de tecnologia, investidores e empresas especializadas observam atentamente cada passo da consolidação desse novo cenário.
Mas existe um ponto que merece atenção. O tamanho da oportunidade não garante sucesso automático.
Existe a percepção de que o potencial brasileiro poderá ser capturado simplesmente por quem investir mais ou crescer mais rápido. Eu acredito que essa visão está equivocada. Os vencedores deste novo ciclo não serão definidos apenas por escala. Eles serão definidos pela capacidade de operar com segurança, governança, adaptação regulatória e excelência operacional.
Essa realidade ajuda a explicar por que a tecnologia passou a ocupar um papel ainda mais estratégico. A inteligência artificial, por exemplo, deixou de ser apenas uma ferramenta de eficiência. Hoje ela desempenha funções essenciais para a sustentabilidade da atividade. Sistemas avançados conseguem analisar grandes volumes de informações em tempo real, identificar comportamentos atípicos, detectar movimentações suspeitas e apoiar decisões com maior precisão.
Na prática, isso significa que uma plataforma pode identificar padrões incompatíveis com o comportamento habitual de determinado usuário, reconhecer indícios de fraude ou apontar movimentações que demandem análise adicional. O resultado é uma operação mais segura para empresas e consumidores.
O mesmo raciocínio se aplica ao jogo responsável. Durante muito tempo, o tema foi tratado por parte do setor como uma exigência regulatória. Essa visão já não faz sentido. As discussões internacionais mostram que a proteção ao usuário se tornou um dos pilares da sustentabilidade da indústria.
Ferramentas capazes de identificar sinais precoces de comportamento de risco, mecanismos de autocontrole, limites de utilização e campanhas de conscientização tendem a ganhar cada vez mais relevância. Não apenas porque são exigidos pelos reguladores, mas porque representam uma condição fundamental para a construção de um ambiente equilibrado.
Outro aspecto que chamou atenção durante os debates foi a evolução do uso de dados. O business intelligence também está passando por uma transformação profunda. Durante anos, sua principal função foi explicar acontecimentos passados. Agora, a tendência é utilizar modelos preditivos capazes de prever riscos e apoiar decisões em tempo real.
Essa capacidade de antecipação tem impacto direto sobre eficiência operacional, segurança financeira, conformidade e experiência dos usuários. Quanto mais rápida for a identificação de desvios, maiores serão as condições de resposta das empresas.
E talvez esteja justamente aí a principal mudança em curso. Durante muito tempo, a experiência do usuário foi associada quase exclusivamente à facilidade de cadastro, velocidade de pagamento ou simplicidade de navegação. Esses fatores continuam importantes, mas deixaram de ser suficientes.
Nos mercados regulados mais maduros, a percepção de qualidade está cada vez mais associada à confiança. Os usuários querem plataformas eficientes, mas também esperam proteção de dados, transparência, segurança e responsabilidade.
O setor vive, portanto, uma redefinição dos seus próprios critérios de sucesso. Se no passado a prioridade estava concentrada na expansão comercial, agora o diferencial competitivo passa a estar na capacidade de combinar inovação, inteligência de dados, governança, conformidade e proteção ao usuário.
Os mercados mais promissores serão aqueles que conseguirem equilibrar desenvolvimento econômico e segurança jurídica. Da mesma forma, as empresas mais bem posicionadas serão aquelas capazes de transformar tecnologia em confiança.
O crescimento continuará sendo importante. A inovação seguirá criando oportunidades. Novos produtos continuarão surgindo. Mas a próxima década do iGaming será definida por um fator muito mais valioso do que qualquer indicador de expansão. Ela será definida pela capacidade de construir credibilidade de forma consistente, responsável e duradoura.
(*) Thiago Garrides é CEO da Cactus Gaming.


