CBN: Sardenberg analisa que o endividamento é consequência do aumento da ‘bancarização’ e não das apostas nas bets

O Desenrola 2 atende pessoas com renda de até cinco salários mínimos que possuem dívidas. O programa está em sua segunda edição. Consumidores que mantêm pagamentos regulares, mesmo com dificuldades financeiras, não recebem vantagens ou reconhecimento por esse comportamento. (ouça o áudio)
A análise foi apresentada pelo comentarista Carlos Alberto Sardenberg, da CBN, nesta terça-feira (5/5). Sardenberg apontou duas falhas principais no funcionamento do programa. A primeira é a inexistência de benefícios para consumidores que honram compromissos financeiros regularmente. A segunda é a falta de limitações para que pessoas que renegociam dívidas contraiam novos débitos.
O programa não estabelece diferenciação entre quem paga contas em dia e quem deixa de pagar. Consumidores que tomaram crédito no cartão de crédito e estão pagando regularmente, fazendo sacrifícios para manter os pagamentos em dia, não recebem nenhum tipo de reconhecimento.
Sardenberg afirmou que poderiam existir estímulos como mecanismos que facilitassem a troca de dívida cara por dívida barata. O comentarista destacou que não existe nenhum prêmio ou incentivo para quem mantém seus pagamentos em dia.
Segundo a análise, quem tem dívida renegociada deveria ser impedido de contrair nova dívida. A restrição à tomada de novo crédito seria mais eficiente do que proibir a pessoa de apostar nas bets. Quem renegocia sua dívida pode tomar outro débito, quando não deveria poder fazê-lo.
A ausência de estímulo ao bom pagador e de limites à tomada de crédito pode criar o que economistas chamam de risco moral. Trata-se de uma condição em que vale a pena deixar de fazer alguma coisa esperando ser socorrido mais à frente.
“O pessoal pode tomar dívida, gastar por conta e ficar esperando o Desenrola 3”, afirmou Sardenberg.
Este risco está presente no programa atual. Sem esse tipo de incentivo, cria-se o risco moral, que pode estimular comportamentos financeiros irresponsáveis por parte dos consumidores que esperam por futuras renegociações.
Sardenberg apontou problemas na regra que bloqueia o CPF de quem renegocia dívidas nas plataformas de apostas. O comentarista considera a medida pouco eficaz, já que a pessoa pode utilizar outro CPF para fazer apostas. Ele contestou a premissa de que as bets sejam a causa do endividamento da população.
O comentarista atribuiu o alto endividamento a uma consequência indireta da bancarização. Com a abertura das fintechs e instituições de pagamento, houve distribuição massiva de cartões de crédito para pessoas que não tinham condições adequadas de receber aquele limite de crédito. Para Sardenberg, o endividamento é consequência do aumento da ‘bancarização’ e não das apostas nas bets.
Sardenberg reconheceu que a bancarização foi positiva ao permitir que mais pessoas usassem o Pix e tivessem acesso ao sistema financeiro de forma segura. Porém, a distribuição de cartões ocorreu sem que os beneficiários tivessem educação financeira ou condição financeira compatível.
Segundo Sardenberg, o endividamento dos brasileiros está concentrado no rotativo do cartão de crédito e não nas apostas em bets. Os números mostram que o maior problema de endividamento está no rotativo do cartão de crédito.
As pessoas tomam empréstimo via cartão e ficam endividadas devido aos juros elevados dessa modalidade, que são os piores do mercado. A maior concentração de atraso e inadimplência está justamente no rotativo. As pessoas mais endividadas e inadimplentes são aquelas que ganham de um a três salários mínimos.


