‘Corrida dos bichos’ reúne jogo do bicho em carne e osso, Rio distópico, diretor indicado ao Oscar e Anitta

O filme “Corrida dos bichos” estreia nesta quinta-feira (6/8) no streaming do Amazon Prime Video. A produção é codirigida por Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento e tem no elenco Rodrigo Santoro, Isis Valverde e Bruno Gagliasso.
Conforme antecipou a Globo Online, o longa é uma obra de ação apocalíptica ambientada num Rio de Janeiro futurístico devastado por uma catástrofe natural que secou o mar. Na trama, o jogo do bicho ganha uma versão literal: competidores usam máscaras de animais e disputam uma corrida violenta por diversas áreas da cidade, seguindo ordens de líderes em salas de comando.
A trilha sonora do filme tem “Bichos escrotos”, dos Titãs, como tema principal. A canção foi originalmente lançada no álbum “Cabeça dinossauro”, em 1986, e agora aparece em nova versão gravada por Anitta, que também faz uma participação como atriz no longa.
Origem do projeto
A ideia central do filme remonta a 2008. Ernesto Solis recebeu de um produtor a encomenda de um roteiro com a premissa de um Rio de Janeiro futurista. “A partir disso, quis trazer algo que identificasse muito o Brasil, que fizesse parte da nossa identidade, especialmente no Rio, e foi assim que escolhi o jogo do bicho. Queria fazer uma alegoria que fugisse um pouco do registro do realismo, queria fazer uma coisa doida e absurda”, afirmou Solis.
Com o desenvolvimento do projeto e a entrada da O2 Filmes na produção, Rodrigo Pesavento se juntou à direção para trabalhar especialmente as sequências de ação. Fernando Meirelles foi o último a integrar a equipe, a pedido da Amazon. “Quando a Amazon comprou o pacote para fazer o filme, eles pediram para que eu me juntasse à direção, sentiam que era importante ter alguém com mais experiências em longas”, declarou Meirelles. O diretor afirmou ainda que, nas cenas que não estava dirigindo, operava a câmera.
Para Meirelles, o projeto significou um retorno ao Rio de Janeiro, cenário de “Cidade de Deus” (2002), seu longa mais famoso.
Crítica social em formato de thriller
O elenco destaca a camada temática da obra. Rodrigo Santoro, que interpreta Abu, o organizador da corrida, definiu o personagem como o “arquétipo da vaidade”. “É um filme que fala sobre desigualdade social, dinâmicas de poder e a cultura da espetacularização que vivemos hoje em dia. Temas extremamente atuais são trazidos através de uma alegoria e utilizando muitos elementos da cultura para fazer uma crítica social. É um thriller de ação absolutamente brasileiro, não é o pastiche de uma distopia americana”, afirmou.
Bruno Gagliasso interpreta Leon, descrito pelo ator como um “escravocrata moderno” que comanda um dos grupos mais violentos da corrida. “Me interessou muito fazer um filme que não é sobre o futuro. É muito mais sobre o presente e sobre um futuro que pode vir a acontecer, com uma sociedade moralmente falida tomando conta do mundo. Além de ser um entretenimento de altíssima qualidade, este filme também faz as pessoas pensarem. É o tipo de filme que você reza para aparecer”, declarou Gagliasso.
Isis Valverde interpreta Nadine, casada com Leon e também participante dos jogos. A atriz destacou o impacto das catástrofes ambientais como tema do filme.
Matheus Abreu e Thainá Duarte representam o outro lado da pirâmide social da trama. Abreu vive Mano, opositor da corrida que é forçado a assumir a máscara do Gato para salvar sua irmã Dalva, interpretada por Duarte, conhecida pela série “Cangaço novo”. O elenco inclui ainda Seu Jorge, João Guilherme, Silvero Pereira e Grazi Massafera.
Filmagens e efeitos especiais
A maioria das cenas foi rodada em locações reais do Rio de Janeiro. Rodrigo Pesavento explicou que os efeitos especiais foram usados principalmente para criar o cenário apocalíptico, e não nas sequências de ação. “A parte com mais efeitos especiais foi enxugar a água do mar. Não tivemos muitos efeitos nas cenas de ação. A gente quis usar cenários reais e cartões-postais da cidade para mostrar como seriam esses espaços degradados após anos e anos”, detalhou o diretor.
Matheus Abreu disse ter se surpreendido com a proporção das filmagens em locação. “Quando li o roteiro, achei que teria muita coisa em estúdio, por causa dos efeitos especiais, mas foi quase tudo locação”, afirmou. Isis Valverde relatou dificuldade com as gravações em fundo verde. “Sofri muito com o fundo verde. Eu adorava ver filme com gente voando, dragões, mas eu via a coisa já pronta. Quando o Fernando (Meirelles) ligava a câmera e falava ‘olha para não sei o quê’ e eu não via nada, eu falava ‘misericórdia'”, lembrou a atriz. “Comecei a fazer um trabalho mais interno, porque você atua para o nada. Isso foi o mais difícil de todo projeto”, acrescentou.
Ernesto Solis ressaltou ainda a identidade carioca da história e a dificuldade de explicar ao público estrangeiro a lógica do jogo do bicho. “O Rio tem essa coisa que é a mistura entre diversão, prazer e perversidade, que está no jogo do bicho. Os patronos do carnaval são os donos do jogo ilegal. Essa mistura entre o ilegal e o permitido foi difícil de explicar para pessoas fora do Brasil. Nas nossas conversas com a Amazon era difícil explicar como algo ilegal era tão aceito pela sociedade e também pelo poder público”, afirmou o diretor.


