Especialista defende no Senado que as maiores vítimas da manipulação são os operadores de apostas

Apostas I 20.03.24

Por: Magno José

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Especialista defende no Senado que as maiores vítimas da manipulação são os operadores de apostas
Representantes da Good Game! são ouvidos no Senado (Foto: Pedro França/Agência Senado)

A audiência pública da Comissão de Esportes (CEsp) realizada no Senado para ouvir dois representantes da Good Game!, Pierre Sallet e Thierry Hassanaly, que ganhou notoriedade após ser contratada pelo Botafogo e ter alegado irregularidades em partidas do clube durante o Campeonato Brasileiro do ano passado, foi uma prévia de como será a CPI para apurar fatos relacionados às denúncias e suspeitas de manipulação de resultados no futebol brasileiro, envolvendo jogadores, dirigentes e empresas de apostas.

Durante a reunião com duração de quase duas horas, os senadores autores dos requerimentos Carlos Portinho (PL/RJ) e Eduardo Girão (Novo/CE) e o presidente Jorge Kajuru (PSB/GO) focaram na manipulação (79 citações), mas não se esqueceram das apostas (51 citações), CPI (23 citaçoes), apostas esportivas (11 citações), loteria (2 citações) e jogatina (3 citações).

O BNLData recomenda que os representantes do setor assistam ao vídeo e leiam as Notas Taquigráficas da audiência pública.

Sobre a CPI da Manipulação

Sobre a CPI da manipulação que foi aprovada e será instalada, o senador Jorge Kajuru (PSB-GO) informou que a do Senado será diferente da Câmara.

“O Brasil pode ter certeza de que essa CPI que vai começar logo, sobre manipulação de jogos de futebol, vai dar exemplo ao Brasil, porque, respeitado amigo e irmão Senador Eduardo Girão, em uma CPI que tem Romário, que tem Esperidião Amin, que tem Portinho, que tem você, que tem Leila do Vôlei, que tem, humildemente, eu, nós não vamos dar a chance de nossa digital, de nossa honra ser manchada. Infelizmente, o Brasil viu lá na Câmara dos Deputados uma decepcionante Comissão de Esportes, acusada inclusive de achaques e que terminou como terminou. Então, esta CPI será diferente mesmo. Ela será implacável mesmo. Ela vai convidar educadamente os envolvidos, mas vai chegar até a Polícia Federal, caso alguém não queira estar aqui presente”.

Contrário aos jogos e apostas

Logo no início da reunião, o senador Eduardo Girão (NOVO-CE) manifestou-se contrário aos jogos legalizados.

“A gente está muito preocupado, neste momento, com o que estamos vivenciando aqui no Brasil. A aprovação da loteria de aposta de quota fixa em nosso país, por meio da Lei 13.756, de 2018, provocou uma explosão desordenada e perigosa, do ponto de vista da saúde pública, dos jogos de apostas esportivas online. Na esteira da entrada em vigor da lei, o ambiente virtual transformou-se em uma espécie de terra sem lei, onde reinam não apenas as por si sinistras apostas esportivas, mas também uma série de jogos ilegais e outras atividades fraudulentas.

Pior ainda, no meu modo de entender – respeito quem pensa diferente, e isso é uma tragédia anunciada -, quando foram incluídos além dos jogos de apostas em eventos esportivos reais também aqueles em eventos virtuais, jogos online como tigrinho, aviãozinho, máquina caça-níquel, entre outros jogos de cassino. Tal manobra, reprovável, lá na Câmara dos Deputados, principalmente, recolocou o que o Senado tirou, ou seja, esses tipos de jogos de alto poder viciante e que têm causado verdadeiras tragédias no seio da nossa sociedade. Estamos falando de um aumento vertiginoso de suicídios entre a população mais jovem, de consideradas perdas patrimoniais, principalmente entre os pobres e idosos. Matéria do Estadão afirmou que, em média, mais de R$ 100 do Bolsa Família já estão sendo gastos com jogos online, Senador Kajuru, mas não há como fiscalizar os componentes eletrônicos, os softwares que estão sediados fora do país e são programados artificialmente para gerar lucro quase exclusivamente para a banca de apostas.

Por outro lado, a quantidade de publicidade de casas de apostas em arenas esportivas tem sido uma verdadeira lavagem cerebral. Além disso, influenciadores digitais, atletas, artistas, comentaristas de rádio e televisão “vendem”, entre aspas, essas casas de apostas para os seus milhares, senão milhões de seguidores. Assistir ao futebol hoje, eu, que procuro não perder jogos sempre que posso, é meu hobby, é complicado. Usam até a palavra “profetizar”, “profetize”, quer dizer, é uma usurpação de um termo até religioso que está sendo banalizado para ganhar dinheiro. Mesmo nos jogos reais de eventos esportivos dos quais estamos tratando aqui nesta audiência, os riscos de manipulação de resultados são enormes e vêm, cada vez mais, retirando o brilho do esporte. Esse é o problema principalmente no futebol, atividade que é paixão nacional.

Então, o que a gente tem visto ultimamente, Senador Romário, e que me preocupa, é se a gente está vendo aquele jogo real mesmo ou se é tudo combinado, um jogo de comadre, para beneficiar alguém. Isso é muito preocupante sob todos os aspectos e tira a essência do futebol. Notícias veiculadas na imprensa comprovam cada vez mais a ação de organizações criminosas no mundo das apostas esportivas, em especial aquelas feitas de forma remota, online. Dessa vez, as fraudes que estão sendo investigadas pelo Gaeco, que é o grupo especializado de combate ao crime organizado, do Ministério Público do Estado de Goiás, terra do nosso Kajuru, o Kajuru ama, na operação Penalidade Máxima, teriam acontecido nas Séries B de bola, C de casa, D de dado e até na Série A de amor do Campeonato Brasileiro de Futebol, primeira divisão.

O Brasil foi o país com mais jogos suspeitos de manipulação de resultados no mundo, em 2022, com 152 eventos esportivos – olha só, 152 eventos esportivos -, 139 partidas de futebol. Estou com esse mapa, aqui, que mostra a suspeita – Senador Portinho, também autor desta audiência – de manipulação. No Brasil, de 152 jogos, só de futebol 139; Rússia, 92; República Tcheca, 56; Cazaquistão, 43; China, 41; Grécia, 40; Argentina, 39; Filipinas, 37; Polônia, 36; Tailândia, 35. A fonte disso aqui é o SportyTrader. O Brasil campeão, isso é uma vergonha! Onze atletas profissionais de futebol já foram punidos pela CBF e pela FIFA, seja no âmbito nacional, seja no âmbito mundial, com penas que variam da suspensão de praticar o esporte até o banimento definitivo do futebol. Além deles, há outras dezenas de jogadores sendo investigados.

A jogatina está diretamente ligada ao que existe de mais perigoso. Estudos publicados no jornal The New York Times apontam que entre 50% e 80% dos ludopatas pensaram em tentar o suicídio – a média da população é de 5%, mais do que dez vezes mais à daqui -, e entre 13% e 20% realmente tentaram ou conseguiram se matar. A média da população é 0,5%. É escandaloso isso.

A Organização Mundial de Saúde se manifestou no sentido de que a semelhança entre o vício em jogos e a dependência química é que ambos levam a comportamentos compulsivos. Isso quer dizer que a pessoa não consegue controlar por conta própria os seus impulsos, o que pode acarretar, como já dito, graves problemas financeiros, destruição da família, perda do emprego até o suicídio, ou seja, nós estamos matando a galinha dos ovos de ouro – por isso que uma audiência dessas é muito importante para a gente procurar conter, ver o que pode fazer para assegurar, porque nós estamos matando a galinha dos ovos de ouro do futebol, que é um patrimônio nacional. Além disso, ambos podem alterar a química do cérebro, no sentido de que evolui quando o usuário aumenta a dose, a aposta ou passa mais tempo consumindo o vício.

Para finalizar, Sras. Senadoras, Srs. Senadores, boa parte dos jogadores em tratamento por jogo compulsivo admitem cometer crimes para financiar seu vício ou pagar dívidas relacionadas ao jogo. A Polícia Federal, a Receita Federal, a PGR já afirmaram que os crimes de fraude, lavagem de dinheiro, peculato, falsificação, evasão fiscal e corrupção de agentes públicos predominam entre aqueles cujo emprego, status econômico apresentam oportunidade para tais crimes. Os adeptos da liberação de cassino – outro tipo de jogo de azar – fazem questão de passar bem ao largo, quando o assunto é o custo social da jogatina. Estudos realizados por pesquisador da Universidade Baylor, no Texas, anunciaram que cada dólar em benefícios criados pelo jogo resulta em enormes custos sociais, tanto para o Estado brasileiro quanto para a sociedade, como insegurança pública, saúde mental, previdência social, fiscalização, controle e necessidade de inovação tecnológica, entre outros.

Portanto, ao sugerir, em conjunto com o Senador Portinho, a quem rendo as homenagens, essa audiência pública, objetivamos debater essa matéria, sempre buscando conter os danos já causados e os que certamente se acumularão no futuro se nada for feito contra a oferta desses jogos pelas empresas que operam a loteria de cota fixa, bem como excluir do mercado verdadeiras facções criminosas que se autointitulam de empresas – essas mesmas que aliciam atletas, árbitros e treinadores para o cometimento de fraudes e sobrevivem lucrando sobre a tragédia humana.”

Os operadores perde dinheiro com a manipulação

Ao término da reunião, o senador Eduardo Girão (NOVO-CE) perguntou ao CEO da empresa Good Game!, Thierry Hassanaly se ele achava necessária uma medida firme, dura, mas que vai preservar o esporte, seria banir aposta esportiva?

“O que a gente sabe também é que, quanto aos operadores dessas apostas esportivas, não pode haver conflito de interesse porque um jogo foi manipulado, ou sim ou não. Eles acabam perdendo dinheiro. Os primeiros a quererem parar a manipulação das competições, que teriam interesse do modo, são os operadores esportivos. Quando o jogo está manipulado, eles perdem dinheiro. Ou, se trabalhar para eles, é muito outro conflito de interesse; ou ter o mesmo sentido de limpar o esporte, que, na verdade, é esse flagelo que é a manipulação.”

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