Entrevista: Paulo César Campos, novo Superintendente Nacional de Loterias e Jogos da Caixa Econômica Federal.
Paulo César Campos*, funcionário de carreira da Caixa Econômica Federal, assumui na seman passada a Superintendente Nacional de Loterias e Jogos da Instituição.
O BNL publica entrevista onde Paulo Campos fala com exclusividade ao Boletim sobre vários assuntos do mercado lotérico nacional.
Na edição de hoje, o novo Superintendente, responde as perguntas sobre a sua nomeação para o cargo, os aspectos sociais das loterias do Governo Federal e sobre a estrutura de loterias da Caixa Econômica Federal, que ele passou a comandar a partir da semana passada.
BNL – Você acredita que a sua nomeação para o cargo deve-se a sua atuação partidária, ao seu trabalho na Gerência Nacional de Loterias da Caixa nos últimos anos ou por causa dos dois motivos citados acima?
Paulo Campos – O governo está procurando preencher todos os cargos dirigentes de órgãos públicos com pessoas detentoras de perfil profissional adequado à função e que, claro, sejam alinhadas politicamente às novas diretrizes governamentais. Na Caixa não é diferente. A escolha, pelo Vice-presidente Carlos Borges, levou em consideração minha experiência profissional e minha sintonia com o pensamento da nova administração.
BNL – Em que aspecto as loterias se enquadram na visão social do novo Governo?
Paulo Campos – Tal qual ocorre na maioria dos países, as loterias somente podem existir se atenderem a uma função social. No Brasil, poucos serviços públicos têm uma atuação tão abrangente quanto as loterias federais, pois, somente nos últimos 4 anos, foram repassados ao Governo, recursos superiores a R$ 5 bilhões para investimentos na área de seguridade social, financiamento a alunos de curso superior, cultura, esportes e outros empreendimentos de interesse público. Particularmente, acredito que o negócio loterias, devido a esse alcance social, receberá uma valorização destacada do Governo Federal.
BNL – Mas, essa função social não é do conhecimento de muitos. O que pode ser feito?
Paulo Campos – Estamos desenvolvendo uma estratégia de reposicionamento das loterias federais, com o objetivo de que a sociedade – como um todo, perceba o papel social das loterias. O conceito que queremos difundir é o da “contribuição voluntária”, ou seja, que todos tenham consciência de que, mesmo quando o consumidor não é contemplado com nenhum prêmio das loterias, a sociedade está sempre ganhando.
BNL – Quem será indicado para o seu lugar na Gerência de Loterias e para as outras duas gerências de GELTE e GENAB?
Paulo Campos – Para o cargo de Gerente Nacional de Loterias foi indicado o colega José Luiz do Amaral Quintans, que é funcionário de carreira da CAIXA. Esse profissional traz uma experiência importante de atuação tanto em outras áreas da empresa quanto em atividades externas. Acredito que ele poderá contribuir de forma marcante para o bom desempenho das loterias federais. No tocante aos ocupantes das demais gerências nacionais, deverão ser mantidos os atuais.
BNL – Vai haver alguma mudança no organograma da Superintendência Nacional de Loterias?
Paulo Campos – Estamos procedendo a uma reavaliação da estrutura da Superintendência. Essa reavaliação está a cargo da área de desenvolvimento empresarial, responsável pelo desenho administrativo e funcional da empresa e um dos objetivos do trabalho que realiza no momento, é o de avaliar medidas que venham a proporcionar melhor desempenho. No modelo atual, a Superintendência Nacional de Loterias e Jogos – SUALO tem a seu cargo a administração dos produtos de loteria e sua logística. A Superintendência Nacional de Estratégia de Canais – SUDEC cuida da política de canais comerciais. Finalmente, a Gerência Nacional de Administração de Rede de Correspondentes Bancários – GECOR coordena os correspondentes bancários e a rede lotérica, através dos Escritórios de Negócios Regionais, promovendo sua integração com as outras áreas da empresa, inclusive com a SUALO, de forma que o processo de administrar loterias encontra-se descentralizado. Não podemos ainda afirmar se haverão mudanças no organograma.
BNL – Você está substituindo na Superintendência, o gaúcho Marco Antônio Lopes que durante dois anos consecutivos, bateu recordes em vendas. Apesar de você ter feito parte da equipe dele, como você pretende melhorar ainda mais a performance das loterias da CEF durante a sua gestão?
Paulo Campos – O planejamento estratégico das loterias da CAIXA é desenvolvido considerando aspectos de curto, médio e longo prazo. Em todos esses cenários, nossa perspectiva é de manter o crescimento de vendas e, principalmente, aumentar o volume de recursos colocados à disposição de programas sociais do Governo Federal. Para que possamos atingir esse objetivo, adotaremos ações de pesquisa, desenvolvimento e lançamento de novos produtos, de incremento de nossa comunicação através de ações estruturadas de publicidade e propaganda, de atuação logística e mercadológica sempre em consonância com os princípios da melhor administração pública e com os anseios do cliente apostador.
BNL – O que poderá mudar com a atuação das loterias da CEF com a chegada do Partido dos Trabalhadores ao poder?
Paulo Campos – O Partido dos Trabalhadores notabiliza-se pela gestão compartilhada e participativa e pelo diálogo intenso e constante com os segmentos da sociedade. Alinhados que somos a esses princípios, adotaremos uma gestão que permita que os aspectos institucionais e negociais sejam decididos de forma a levar o progresso a todos os envolvidos na atividade, através da manutenção de uma interlocução de alto nível com os empresários lotéricos voltada para a discussão do futuro do negócio. Além disso, a visão social do novo Governo Federal e o aumento do grau de competitividade do segmento, sem dúvida nenhuma, darão o tom da atuação das loterias administradas pela CAIXA.
BNL – Sabemos que algumas loterias da CEF operam hoje muito abaixo das expectativas dos dirigentes, como exemplos podemos citar a Loteca e o Lotogol. Durante a sua gestão, você tem planos para lançar novos jogos e extinguir alguma das oito loterias que a CEF opera hoje?
Paulo Campos – O mercado lotérico, seja no cenário nacional ou internacional, tem se mostrado muito dinâmico. A diretriz estratégica da nova gestão é de acompanhar, tanto quanto possível essa realidade de mudanças, e nesse contexto, a segmentação na oferta de produtos de loterias é desejável e necessária. Com relação às loterias de prognósticos esportivos, que no Brasil foram as primeiras loterias de prognósticos apresentadas à população, procuraremos aplicar soluções que moldem os produtos ao gosto do público apostador, apesar de sabermos que essas modalidades apresentam declínio de arrecadação tanto no Brasil quanto em outros países que as exploram.
BNL – No dia 14 de janeiro, venceu o contrato da CEF com a operadora a Gtech e ele foi prorrogado por mais três meses, até o dia 14 de abril. Essa é uma parceria que vem de muitos anos e apesar das questões judiciais o atual contrato ainda poderá ser renovado? Existe interesse da Caixa em renovar o atual contrato ou os planos de realizar uma licitação para operação própria será levado adiante? Existe, mesmo que remota, a possibilidade de a CEF ficar temporariamente sem operar suas loterias devido à falta de solução contratual junto a Gtech?
Paulo Campos – Esse assunto está sendo conduzido pelo Conselho Diretor da CAIXA que, para auxilia-lo, criou uma estrutura especial que tem a missão de avaliar todas as questões envolvidas, encontrar soluções que mantenham a qualidade dos serviços que prestamos à população brasileira e que preserve os direitos de todos. Acreditamos que oportunamente todas as questões serão levadas a bom termo.
BNL – Como a CEF vê as atuações das loterias estaduais?
Paulo Campos – A legislação federal autoriza e legitima apenas o funcionamento da loteria de bilhetes de alguns poucos Estados. No entendimento da CAIXA e do Ministério Público Federal, quaisquer extensões ou iniciativas não previstas no texto da lei constituem-se em transgressões ao princípio constitucional da legalidade. É bom lembrar que o Ministério Público Federal já propôs ações judiciais nos estados do Rio Grande do Sul, do Rio Grande do Norte e no Distrito Federal.
BNL – A Loterj está lançando a sua Loteria de Prognósticos On-line e Real time e deseja utilizar as 600 lojas que formam a rede lotérica da CEF no estado do Rio de Janeiro. Esse procedimento é baseado na sentença que o Sincoerj obteve na Justiça, que garante aos lotéricos a venda de produtos não conveniados. O que você acha desse expediente? Além da Loterj, outras loterias estaduais pretendem lançar ao longo desse ano as suas loterias on-line através de captação de apostas em terminais eletrônicos, a exemplo da Loteria do Rio de Janeiro. O Senhor acredita que essas iniciativas poderão representar uma concorrência para os produtos da CEF em médio e longo prazo?
Paulo Campos – Não cabe à Superintendência de Loterias e Jogos da CAIXA discutir o mérito de decisões judiciais, sejam definitivas ou liminares. Temos total confiança de que a justiça, em sua decisão final, considerará todos os aspectos da questão e se pronunciará favoravelmente à CAIXA. Quanto à outra questão, pessoalmente não acredito que os lotéricos fluminenses irão aderir à proposta do Consórcio Combralog, pois isso, além de ser inoportuno e impertinente no atual momento – em que estamos iniciando um novo modelo de relacionamento, poderia desobrigar a CAIXA de manter a exclusividade com a rede naquele Estado, ou seja, estamos confiantes na sensatez de todos. A CAIXA moldará suas ações levando em conta um ambiente de concorrência, e tem como meta ampliar consideravelmente sua competitividade, através da criatividade e de ações mercadológicas bem planejadas e executadas de forma eficiente. Não nos apoiaremos na crença de que qualquer tipo de monopólio nos ampara. Nossos profissionais estão preparados para encarar os desafios de implementar uma política comercial agressiva, nossa rede representa um diferencial competitivo importantíssimo, nossos produtos são líderes desse mercado, novos produtos estão sendo preparados com base no que de melhor existe no mercado mundial de forma que temos todos os ingredientes para desempenharmos de forma competente nosso papel no mercado brasileiro de loterias e jogos.
BNL – Desde o início do ano, alguns Ministros, principalmente o dos Esportes, Agnelo Queiroz, têm dado entrevistas afirmando que o Governo não pode abrir mão dos recursos dos bingos. O presidente da Abrabin, Olavo Sales da Silveira, em recente entrevista ao BNL, afirmou que gostaria que a atividade continuasse sob operação da CEF. O Senhor acredita na aprovação do PL 1037? Fala-se também que enquanto o Projeto de Lei 1037 não fosse aprovado a melhor solução para o mercado dos bingos no país seria a edição de uma Medida Provisória regulamentando a atividade e colocando-a sob fiscalização da CEF. Como o Senhor vê essa solução? Na sua opinião, haveria uma outra solução para o setor de bingos e como a CEF, do ponto de vista estratégico, encara a atividade dos bingos no país?
Paulo Campos – A CAIXA desempenhou ética, eficiente e criteriosamente a missão de autorizar e fiscalizar a exploração dos jogos de bingo, até o limite temporal de sua regulamentação estabelecida na Lei 9.981/2000. Se levarmos em consideração a experiência da administração de loterias e jogos no mercado brasileiro, a CAIXA encontra-se habilitada e possui as credenciais técnicas necessárias para realizar a tarefa de gerir a atividade. No nosso entendimento, os recursos originados da atividade de exploração de jogos de bingo têm um papel social importantíssimo para a geração de benefícios para a área social, notadamente ao esporte brasileiro. No entanto, cabe ao Governo Federal a decisão sobre a forma de implementação e sobre o futuro dessa atividade. A CAIXA estará sempre pronta a dar sua contribuição ao debate dos aspectos ligados aos bingos e não se furtará a exercer seu papel.
BNL – Gostaria também que o Senhor fizesse uma análise do constante processo de estadualização dos bingos?
Paulo Campos – A visão da CAIXA é perfeitamente alinhada com a legislação que regula as atividades ligadas a loterias e jogos e nem poderia ser diferente. Por outro lado, acreditamos que mesmo com a administração e fiscalização dos bingos sob o comando do Governo Federal, isso não impediria que os estados participassem e se beneficiassem dos recursos gerados por sua exploração. O Brasil é um país de dimensões continentais e, nesse campo, uma perfeita integração entre os Governos Federal e Estaduais seria desejável e contribuiria imensamente para que a atividade dos bingos se desenvolvesse de forma a beneficiar toda a população brasileira.
BNL – É do conhecimento do mercado que hoje a sobrevivência da atividade passa pelas máquinas eletrônicas programadas – MPEs, que na Lei Zico eram, definidas como “similar”. Sabendo que elas têm um grande poder de gerar receita para a atividade e dentro do quadro atual, qual seria a solução para as máquinas de videobingos?
Paulo Campos – Pessoalmente, acredito que este segmento deverá ser objeto de regulamentação. Hoje, na maioria dos estados brasileiros, essas máquinas encontram-se disseminadas por toda parte. Essa situação tem o potencial de provocar algumas distorções, gerando preocupações ao Estado, que tem o dever de salvaguardar os interesses da sociedade. Vários países do mundo encontraram soluções criativas que permitiram a sobrevivência da atividade sem que isso representasse perigo para suas populações. Devemos procurar encontrar meios para resolver os problemas por aqui também, de forma aberta e criativa.
BNL – Atualmente, o mercado estima que existam no Brasil algo em torno de 600 mil máquinas de caça-níqueis instaladas em bares e lanchonetes. Considerando que cada máquina tenha um potencial médio de venda de R$ 30,00 por dia, estamos falando em R$ 18 milhões ao dia e R$ 540 milhões por mês, e conseqüentemente, R$ 6.480 bilhões por ano. Essa atividade não é tributada e nem fiscalizada. Países como Espanha e Austrália controlam essa modalidade lotérica e transformaram-nas em boas fontes de receita. Como o Senhor encara essa atividade e se seria possível a CEF operar a modalidade “caça-níquel” no país?
Paulo Campos – Apesar de serem dados estimados, temos consciência de que esse mercado movimenta recursos de expressiva monta. Em consonância com os princípios legais que regem o segmento de loterias e jogos no Brasil, no sentido de que sua exploração deve contemplar a reversão de parte da arrecadação a programas do Governo, em empreendimento do interesse público, e dentro da filosofia de encarar mercadologicamente os desafios comerciais da atividade, não vislumbro impedimentos para que a CAIXA opere qualquer modalidade de jogo permitida por Lei, apesar de haver uma série de considerações a serem feitas quando se trata dessa ou daquela modalidade específica.
BNL – Com a implantação dos terminais financeiros na rede de casas lotéricas da CEF elas passaram a trabalhar com mais dinheiro em caixa, e conseqüentemente, ficaram mais expostas aos assaltos. Além disso, os sindicatos dos lotéricos de todo o país vêm reclamando há muito tempo da falta de diálogo com a Caixa. Comenta-se que a sua indicação para o cargo de Superintende Nacional de Loterias seria uma forma de melhorar esse diálogo com os lotéricos. Como o Senhor analisaria a relação Caixa Econômica Federal e os Empresários Lotéricos? O que pode ser melhorado nessa parceria?
Paulo Campos – Os empresários lotéricos são parceiros importantes da CAIXA. O nosso interesse é de estabelecer um diálogo do mais alto nível com todos os empresários, através da criação de mecanismos de comunicação que nos permitam dialogar com cada um e debater nossos problemas comuns, sempre com a intenção de acertar e construir o futuro do negócio. Sabemos que mudanças serão necessárias, mas mudanças são a essência de qualquer atividade. Numa rede dessa dimensão, isso não poderia ser diferente. Estou verdadeiramente interessado no estabelecimento de um diálogo franco e transparente com a base do empresariado lotérico, sobretudo com aqueles que efetivamente vivem a realidade da comercialização das loterias federais.
BNL – Para encerrar a nossa entrevista, reservamos esse espaço para alguma consideração que o Senhor tenha interesse em divulgar para o mercado lotérico brasileiro?
Paulo Campos – Nessa oportunidade, gostaríamos de concluir lembrando que, segundo o texto da lei, “é dever do estado, para salvaguarda da integridade da vida social, impedir o surgimento e proliferação de jogos proibidos que são suscetíveis de atingir a segurança nacional”. Além disso, a exploração de loterias, no Brasil, constitui uma exceção às normas de direito penal, só sendo admitida com o sentido de redistribuir os seus lucros com finalidade social em termos nacionais. Por conseguinte, assim como na maioria dos países do mundo, no Brasil é fundamental o papel da União como guardiã dos interesses da sociedade, pois isso é o que preceitua nossa Carta Magna. Nossa diretriz administrativa é de buscar total conformidade com a legislação, e ao mesmo tempo procurar otimizar nossa atuação como forma de proporcionar equilíbrio comercial e incrementar a lucratividade dos negócios, tanto para a CAIXA quanto para os empresários lotéricos.
(*) Paulo César Campos tem 43 anos, é formado em Direito e pós-graduado em Administração Financeira, pela Universidade de São Paulo, e em Marketing pela Fundação Getúlio Vargas.
Empregado da Caixa há 23 anos, foi Gerente Nacional de Previdência para Estados e Municípios, Gerente Nacional de Seguros, Capitalização e Previdência Privada Aberta e Gerente Nacional de Loterias da Instituição.Também foi Gerente de Habitação e Hipoteca e Diretor de Operações do Instituto de Desenvolvimento Habitacional – IDHAB, no governo de Cristovam Buarque, em Brasília.


