Loteria é a nova aposta da cultura.
Tem muita gente de olho no dinheiro que o brasileiro gasta no jogo. Eles acham que está mais do que na hora de usar uma fatia do bolo na cultura e, com isso, minimizar a crônica falta de verbas do setor.
O Ministério da Cultura (MinC) espera multiplicar por cinco seu orçamento graças à loteria cultural que pretende lançar no segundo semestre.
A Secretaria estadual de Cultura, por sua vez, planeja arrecadar R$ 50 milhões por ano com seu jogo, o Liga Rio. O projeto já deveria ter saído do papel, mas a secretária Helena Severo prevê o início da operação para “no máximo” daqui a um mês.
— Estamos na reta de chegada. Falta apenas a Anatel ceder um número 0800 ou 0700.
A linha telefônica é fundamental porque os jogos seriam feitos on line ou pela TV. Os telespectadores ligariam para responder temas culturais.
A loteria do MinC deve demorar um pouco mais. Ela está em fase de estudos na Casa Civil. O ministério propôs um modelo e a Caixa Econômica Federal, outro. O formato do MinC também passa pela internet e pela TV — o espectador vai poder ligar de telefone fixo, orelhão ou celular. Ou então pagar com cartão de crédito, cartão pré-pago ou debitar na conta corrente. A Caixa, no entanto, prefere a estrutura tradicional, com bilhetes. Caso a loteria pela TV seja aprovada, o nome será Liga Brasil.
A idéia é que, do montante arrecadado, 40% sejam destinados à cultura, 35% aos prêmios e o restante gasto com operação, divulgação e mídia.
— O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, é simpático à idéia — diz o ator Antonio Grassi, presidente da Funarte e idealizador do projeto.
Depois que o ministro der o O.K. final, é preciso a aprovação pelo Congresso. Além do grande prêmio, seriam distribuídos prêmios instantâneos, como CDs, livros e ingressos para espetáculos nacionais.
Mas o PT não está fechado na questão. O vice-líder do partido na Câmara, Walter Pinheiro, quer mais informações do ministro da Cultura, Gilberto Gil. Ele disse que vai encaminhar ofício a Gil para que esclareça o assunto.
Grassi não vê por que não aproveitar o filão:
— Só a Telesena arrecada R$ 4,8 bilhões por ano. E sabe quanto desse dinheiro vai para o social e para a cultura? Zero.
Ele mesmo reconhece que não era entusiasta da loteria, até conhecer os resultados.
— Antes de ter acesso aos dados, tinha um certo preconceito com essa história do jogo.
Comissão estadual vai analisar destino das verbas.
A loteria estadual também prevê prêmios culturais, como ingressos de teatro. Do que for arrecadado, 10% irão para um fundo estadual da cultura. Segundo Helena Severo, será criada uma comissão, com integrantes do setor público e da área cultural, para analisar o destino das verbas.
— Minha sugestão é que o primeiro tema eleito para discussão dos telespectadores seja sobre a importância do hábito da leitura — diz ela.
Em novembro do ano passado, foi feito um ciclo, em Roma, para discutir a loteria da cultura. Participaram 26 países, 16 dos quais já adotam o jogo. Grassi diz que só na Itália a loteria rende 2,5 bilhões de euros, que são investidos, por exemplo, na manutenção de museus e monumentos. Na Inglaterra, a loteria pagou metade das 26 milhões de libras que a National Gallery de Londres gastou em um quadro de George Seurat.
— Nas loterias americanas, que são estaduais, 38% dos recursos são voltados para educação e cultura, o que significou US$ 13 bilhões em 2001. As universidades de Harvard, Princeton e Columbia são mantidas assim — diz o ator.
Quem está por trás da loteria cultural pela TV é José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Ele está assessorando o MinC e o governo estadual.
— Boni tem um projeto de interatividade com a TV e nós temos conversado muito com ele. Se nossa proposta passar, a presença dele será preciosa — explica Grassi.
O governo paulista também tem um projeto de loteria cultural, que está em estudos. A previsão é de que saia este ano.
Na verdade, a loteria cultural não é uma idéia nova no Brasil. A história recua ao começo do século XIX, quando d. Pedro II criou seis jogos que serviram para manutenção do Conservatório de Música do Rio. Mas faz tempo que a cultura não aproveita a avidez com que os brasileiros fazem sua fezinha na loteca.
O Globo – Mauro Ventura


