Deputado ameaçado de cassação denuncia esquema de corrupção envolvendo Bispo Rodrigues e a Loterj.
O deputado Marcos Abrahão (PSL) partiu para o ataque na tentativa de evitar que a Assembléia Legislativa casse seu mandato. Ontem, subiu à tribuna e fez um inflamado discurso de defesa do mandato e, mais tarde, acusou o deputado federal e presidente do PL-RJ, Bispo Rodrigues, de comandar um esquema de corrupção na Loteria do Estado do Rio (Loterj). Rodrigues o aponta como o assassino do deputado Valdeci Paiva de Jesus, de quem era suplente.
Transtornado, ainda na tribuna, Abrahão usou repetidas vezes a palavra “merda” e não poupou os parlamentares que decidiram levar a plenário o processo de cassação. Chegou a chamar o presidente da Comissão de Constituição e Justiça, Paulo Melo (PMDB), de “palhaço”.
Abrahão voltou a afirmar que o processo não passa de uma campanha de Rodrigues para incriminá-lo, e disse que encaminhará hoje ao Ministério Público denúncia de desvio de dinheiro público envolvendo Rodrigues e a Loterj. O bispo negou as acusações.
Abrahão fez as acusações apoiado nas declarações de seu chefe-de-gabinete – que antes assessorava Valdeci –, Jorge Luiz Dias. Dias afirmou, em entrevista gravada, que atuava como intermediário do repasse de desvios de verbas de publicidade da Loterj para Rodrigues entre junho de 2001 e abril de 2002. Segundo ele, as quantias serviriam para o pagamento de propagandas, que não eram feitas de fato.
O dinheiro, garantiu Dias, era liberado pelo ex- presidente do órgão, Waldomiro Diniz, e repassado à empresa de publicidade Giovanni. Dias sustenta que a agência repassava o montante para a Job Niterói Ltda, responsável pela confecção de outdoors, que na maioria das vezes, não fazia a publicidade, embora assinasse recibos como se tivesse feito o trabalho, recebendo 30%.
O restante era recolhido por Dias, que, afirma, sacava o dinheiro, repassava ao pastor João Domingos, que o entregava ao Bispo Rodrigues. Em outra declaração ao DIA, disse que o dinheiro ia direto para o Bispo.
Dias admite ter recebido 10% a cada operação. Era uma comissão por ter levado a Job para o esquema – que teria movimentado em torno de R$ 800 mil. Ele diz que a vice-presidente da Loterj, Rivângela Barros, é indicação do Bispo e era a diretora administrativa e financeira na época: “O cargo hoje é ocupado por outro indicado do Bispo: Max Frederico”. A Job não foi localizada pelo DIA.
Bispo diz que deputado está desesperado.
O deputado federal Bispo Rodrigues (PL) negou qualquer envolvimento com o esquema denunciado, mas admitiu ligações com Waldomiro Diniz. Ele disse que a mulher do ex-presidente da Loterj, identificada como Sandra, já trabalhou em seu gabinete mas, segundo ele, deixou o cargo quando Diniz assumiu a chefia do órgão.
“Eu e Waldomiro, de comum acordo, resolvemos que não ficava bem a mulher dele, presidente da Loterj, trabalhar para mim, até para evitar que falassem bobagem por aí”, disse.
Sobre a vice-presidente da Loterj, Rivângela Barros, o deputado garantiu que não foi sua indicação, e sim do partido. “O PL indicou a vice. Mas o partido é só a pessoa do Bispo? E isso não é crime, não é ilegal”. Ele negou qualquer ligação com o chefe de gabinete Jorge Luiz Dias, o autor da acusação junto com Marcos Abrahão.
O Bispo prometeu processar os responsáveis pela denúncia, que chamou de idéia fantasiosa. “O Marcos Abrahão está desesperado e, quando uma pessoa está desesperada, sai atacando tudo e todos”, disse, referindo-se ao processo de cassação.
Waldomiro Diniz: acusação é descabida.
O presidente da Loterj entre junho de 2001 e abril de 2002, Waldomiro Diniz, disse que não conhece, nunca esteve com Jorge Luiz Dias, assessor de Marcos Abrahão, e nem foi indicado pelo Bispo Rodrigues para o cargo de presidente do órgão. “Fui nomeado em março de 1999 pelo governador Anthony Garotinho. O PL indicou apenas os diretores das áreas administrativa e operacional”, afirmou Waldomiro Diniz.
De acordo com Diniz, que hoje assessora o ministro-chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, nenhuma publicidade deixou de ser feita, porque há um rigoroso sistema de auditoria para evitar que isso ocorra.
“Todos os atos de minha gestão foram feitos com a lisura e transparência exigidas e serão avaliados pelo Tribunal de Contas do Estado, ao qual compete a aprovação”, disse. Segundo Waldomiro Diniz, as acusações Jorge Dias sobre desvio de dinheiro público são “descabidas”.
O Dia – Alexandre Arruda e Raphael Gomide


