Lei Agnelo-Piva também expõe suas limitações.

Loteria I 18.08.03

Por: sync

Compartilhe:

A diferença dos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, em 1999, para os que terminam hoje não está apenas no maior número de medalhas conquistas pelos atletas brasileiros em Santo Domingo. Neste Pan, as confederações contaram com os recursos da Lei Agnelo-Piva, pela qual 2% da renda da Loteria Esportiva são repassados às confederações olímpicas por intermédio do Comitê Olímpico Brasileiro.
Os Jogos em Santo Domingo foram uma disputa à parte das confederações no quesito aproveitamento de recursos que essas entidades jamais tiveram. Até porque os patrocínios vão e vêm, enquanto a verba da lei é algo certo e anual. Das 26 confederações olímpicas, 13 não pagam ajuda de custo aos atletas, apesar de receberem entre R$ 350 mil e R$ 1,4 milhão por ano.
Pôde-se reparar nestes Jogos algumas entidades que souberam aproveitar tal benefício de forma competente. Foi o caso da Confederação Brasileira de Ginástica. A entidade investiu em treinamento e viagens e ainda reservou parte de sua verba para pagar ajuda de custo aos atletas. Deu no que deu. Além de manter o número de medalhas de Winnipeg na ginástica olímpica feminina (quatro), a modalidade surpreendeu ao subir seis vezes ao pódio na masculina. A presidente da CBG, Vicélia Florenzano, certa vez, chegou a estranhar o fato de algumas confederações não reservarem parte do recurso da lei para os atletas.
— Mas nem passou pela minha cabeça deixar os ginastas sem receber nada — comentou a dirigente, que destinou 26,5% de R$ 1,05 milhão para ajudas aos atletas.
Juliana Veloso ganha R$ 400 da Lei Piva
O taekwondo, cujo desempenho neste Pan foi ruim, é por sua vez um exemplo de má aplicação dos recursos. A confederação não destinou um centavo aos atletas e não deu condições ideais de treinamento. O presidente da entidade, Yong Min Kim, até informou aos atletas que eles iriam receber alguma ajuda de custo, o que não aconteceu.
Enfim, há uma questão óbvia sobre a lei que os dirigentes evitam debater: até que ponto esses recursos beneficiam de fato os atletas, razão da existência das confederações esportivas?
O caso da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) é ilustrativo para o debate. A entidade receberá até o fim do ano R$ 1,4 milhão da lei. E até maio deste ano, nenhum tostão chegara aos atletas sob forma de ajuda de custo. Vá lá, foram pagas hospedagem e passagens para torneios internacionais. Mas até maio de 2003, o dia-a-dia dos competidores foi penoso financeiramente. O que salvou foi o acerto do contrato de patrocínio com a Caixa Econômica Federal. Só a partir daí, os esportistas de ponta passaram a ganhar R$ 1.600 mensais.
— Até maio, o dinheiro da Lei Agnelo-Piva foi usado para manter a confederação, pagar salário de funcionários, entre outras coisas — atesta Luiz Alberto de Oliveira, técnico de Hudson Souza e descobridor de Joaquim Cruz.
O mesmo ocorreu com a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA). Os nadadores nada receberam em 2003 até o fechamento de patrocínio com os Correios, em maio. Dos recursos da Lei Piva, a saltadora Juliana Veloso ganhava R$ 400,00 por mês, apesar de ser a segunda do ranking mundial na plataforma de 10m. Por sorte, a família de Juliana é de classe média, o que não acontece quando se fala em atletismo.
COB festeja resultado, mas evita falsas ilusões.

Claudio Nogueira – Enviado especial
SANTO DOMINGO. O Brasil venceu o Brasil. Nos Jogos Pan-Americanos de 2003 que acabam hoje, ao apagar da pira, no complexo olímpico Juan Pablo Duarte, a delegação brasileira conseguiu cumprir aquilo a que se havia proposto. Superou as 101 medalhas (25 de ouro), obtidas em Winnipeg, em 1999. Além disso, a participação brasileira no evento teve o mérito de revelar atletas e modalidades que não eram conhecidas. Foi o melhor Pan de todos os tempos para o Brasil.
Outro ponto importante, além do total de medalhas nestas “Olimpíadas das Américas”, é o fato de que os resultados de Santo Domingo vão servir de base para as Olimpíadas de Atenas-2004 e para os Pan-Americanos de 2007, que serão disputados no Rio, onde as cobranças e as esperanças serão muito maiores do que em qualquer evento esportivo anterior.
Para o chefe da missão brasileira no Pan, o ex-jogador de vôlei Marcus Vinícius Freire, o Brasil só teve destaques positivos nesta campanha na cidade que é o berço das Américas. O Brasil está surpreendendo o Canadá e lutando pela terceira posição no quadro de medalhas, atrás de EUA e Cuba, que duelam pelo primeiro lugar.
Um objetivo para 2010: superar os cubanos
Em 1999, em Winnipeg, os brasileiros haviam ficado em quarto, superando a Argentina no final do evento.
— Aqui, já nos antecipamos ao Pan-2007, quando o Brasil espera ficar em terceiro no quadro de medalhas. Eu não acreditava que pudéssemos ficar em terceiro. Saltamos um degrau. Sobre 2007, temos duas chances de ficar em segundo. Uma é naturalizar todos os cubanos e a outra, proibir a entrada deles no Brasil — brincou Marcus Vinícius.
O dirigente acrescentou que em pratas e bronzes o Brasil não está muito longe de Cuba, mas nos ouros, sim:
— Em 2011, poderemos pensar em passar Cuba e em 2015 em disputar com os Estados Unidos.
Entretanto, Marcus Vinícius alerta que é preciso relativizar os números do Pan, com relação a Atenas-2004. As Olimpíadas são outro mundo, já que delas participam os melhores atletas do planeta. A representatividade esportiva brasileira é sempre menor em esfera mundial.
— Para 2004, temos de pôr os pés no chão. Aqui, podemos medir o potencial pelas medalhas e pelos cinco primeiros lugares em cada prova. Nas Olimpíadas, o que importa é estar entre os dez melhores. Poucas dessas medalhas vão se repetir em 2004.
Para o dirigente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), o Pan de 2003 revelou valores brasileiros.
— Vários esportes que nunca apareceram antes, como a patinação artística, apareceram. A ginástica masculina também. Tudo isto é efeito da Lei Agnelo/Piva (ela destina verbas das loterias para o COB, que as repassa às confederações). Além disso, pusemos técnicos nas confederações ou trouxemos alguns de fora, casos do handebol (Juan Francisco Coronado, que trabalha no masculino) e o pólo aquático (David Hart, no feminino) — comentou.
Vinícius destaca importância da verba para os esportes
Outro fator de crescimento do esporte brasileiro no universo pan-americano é, na análise do chefe de missão, a iniciativa de criação do Circuito Brasil Olímpico. Itinerante, o evento vem percorrendo várias cidades brasileiras, valorizando especialmente modalidades individuais, como ginástica olímpica, esgrima, levantamento de peso, boxe e outras lutas.
A cada etapa, os vencedores e seus técnicos têm premiação em dinheiro, o que serve de incentivo e é uma ajuda na compra de material esportivo, suplementos alimentares ou até no sustento do próprio atleta e de sua família. Outro ponto positivo é que alguns atletas estão ganhando mais rodagem internacional.
— Na fossa olímpica, no tiro ao prato, Rodrigo Bastos deu um show. Ele mora no interior do Paraná (Guarapuava, a 250 km de Curitiba), não tem onde treinar… Mas ele competiu na Europa, veio aqui, igualou o recorde olímpico (125 tiros certos na primeira passagem). Foi uma prata quase de ouro. A GRD (conjunto, que ganhou três ouros) também deu um show. Já tinha feito isso em 1999, mas nas Olimpíadas-2000 foi injustiçada pelos juízes que não conheciam a equipe brasileira. Aqui, a GRD mostrou o que é realmente.
O dirigente lamentou que a saltadora Maurren Maggi não tenha podido vir, devido à suspensão preventiva pela acusação de doping.
— Eram dois ouros garantidos. Ela poderia ter vencido facilmente nos saltos em distância e triplo. Foi a grande ausência nossa — concluiu.
O Globo – Rogério Daflon 


Compartilhe: