15 apostadores: A coincidência improvável.
O país inteiro estranhou o fato de 15 apostadores terem acertado as seis dezenas do concurso 529 da Mega Sena, o mais difícil dos prêmios lotéricos administrados pela Caixa Econômica Federal. E o estranhamento só aumenta quando a instituição, contrariando estimativas estatísticas de respeitados especialistas, assegura que a inédita premiação coletiva resulta de simples coincidência. Todos os indícios apontam para outra explicação. Jamais, em oito anos de concursos semanais, houve mais do que cinco ganhadores e esse resultado ocorreu apenas uma vez. Em 70% dos mais de 500 concursos realizados sequer houve acertador. Além disso, as 15 apostas vitoriosas foram feitas todas na Região Nordeste, curiosamente em Estados com fuso horário alterado em relação a Brasília, enquanto Estados do Sul e Sudeste, que apostam maciçamente, não tiveram ganhadores. São tantas as evidências de que existe alguma coisa errada, que se torna indispensável uma investigação criteriosa e transparente.
Compreende-se a resistência da Caixa Econômica Federal em sequer admitir qualquer suspeita sobre os concursos que administra com reconhecida competência. É do conhecimento da população que todos os procedimentos antifraudes são observados, inclusive com auditorias independentes e o acompanhamento público dos sorteios. Mas há outras etapas do processo que se desenvolvem sem tanta vigilância, como a coleta das apostas e o seu encaminhamento para a central de apuração. Quem garante que algum mecanismo de proteção não possa ter falhado no teste 529?
Ao chamar a atenção para o estranhíssimo resultado, Zero Hora amplia uma preocupação manifestada por seus leitores e procura dar ao tema um tratamento compatível com a sua importância. A Mega Sena é o sonho semanal de milhões de pessoas, que confiam plenamente na honestidade do concurso. Até por isso, é fundamental que a Caixa elimine qualquer dúvida sobre essa incomum ocorrência, dando publicidade às suas certezas de forma que os apostadores possam compartilhá-las.
Só não pode restringir a explicação à tese da coincidência, como até agora têm feito os responsáveis pela área de loterias. De acordo com o matemático Davi Castiel Menda, existe apenas uma chance em 4,5 bilhões de que 15 apostadores de uma mesma região ganhem o prêmio. Tão improvável que beira o impossível.
E, pelo que se sabe, a lei inexorável das probabilidades ainda não foi revogada.
Jornal Zero Hora (RS) – Editorial


