Análise dos números da entrevista do senador Irajá sobre resorts integrados com cassinos

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Será que os modelos de resorts integrados como de Singapura, Macau, Las Vegas e Japão é o melhor para o Brasil? Uma revisão nas estimativas podem indicar que os IRs defendido na proposta não atingem a arrecadação, geração de empregos e receita tributária para o governo. Confira a análise da entrevista do senador Irajá a TV Senado

Na entrevista do senador Irajá (PSD-TO) a TV Senado, sobre o PL 4.495/20, que legaliza os resorts integrados com cassinos (integrated resort – IRs), o parlamentar apresenta números estimados de arrecadação e empregabilidade com a implantação de uma unidade por estado e no Distrito Federal, através de concessão pelo período de 35 anos. O senador também defende o modelo IRs e cita as operações de Singapura, Macau e Las Vegas como exemplo de modelos de sucesso.

“Acredito nas experiências que deram certo. Não é possível que o mundo inteiro está errado e só o Brasil está certo. Essas experiências que mencionei como Singapura, Macau, Estado Unidos, o Japão também adotou este modelo de resorts integrados, são todas experiências muito bem sucedidas”, revelou o parlamentar.

Irajá defende que a aprovação do seu projeto vai permitir o investimento de R$ 47 bilhões (US$ 8,4 bilhões), geração de 200 mil empregos diretos e a arrecadação de R$ 18 bilhões em novos impostos, que serão divididos entre União, estados e município.

“Existem outros projetos que são mais audaciosos, que liberam quase tudo e a ideia do projeto não é esta. A ideia é começar com uma experiência por estado e se der certo, poderá ser ampliado no médio e longo prazo”, informa o senador.

Análise das estimativas

Para os leigos, os dados e os números parecem robustos, mas para os especialistas as estimativas do senador devem ser ajustadas e discutidas.

Especialistas ouvidos pelo BNLData sobre a proposta do senador Irajá comentaram que será difícil encontrar investidores para implantação de resorts integrados em 27 estados brasileiros. “Com apenas 10% de ocupação da área de cassino, apenas Rio de Janeiro e São Paulo vão gerar interesse dos investidores”, comentou um deles. As duas cidades têm população com alta renda per capta, infraestrutura e volume de turistas para garantir o retorno dos investimentos. A mesma fonte adiantou que as duas cidades poderiam receber 10 resorts integrados com cassinos e dezenas de cassinos urbanos.

“As grandes corporações vão priorizar a instalação destes empreendimentos somente em cidades que atendam a capacidade de garantir o retorno dos investimentos e, neste caso, apenas Rio de Janeiro, São Paulo e, talvez, Brasília estariam aptas para operar estas unidades”, comentou.

Receita tributária

Mas a legalização e implantação apenas de resorts integrados com cassinos não resolverá o problema a curto prazo de receita tributária do governo, pois além de serem poucas unidades para garantir uma receita que justifique o esforço de legalização, o tempo de construção destas unidades será de no mínimo quatro anos.

Segundo da American Gaming Association – AGA, os 989 cassinos comerciais e tribais dos Estados Unidos, tiveram uma arrecadação total de US$ 77,33 bilhões (R$ 433 bilhões) em 2019, sendo que foram pagos US$ 10 bilhões (R$ 56 bilhões) em impostos sobre jogos para os governos estaduais e municipais em 44 estados. A aposta per capta dos norte-americanos nos cassinos em 2019 foi de R$ 1.319,00.

Seguindo o modelo norte-americano de tributação, os cassinos resorts brasileiros teriam que arrecadar cerca de R$ 139 bilhões todos os anos para entregar aos cofres do governo os R$ 18 bilhões em receitas tributárias anunciadas pelo senador Irajá. Para fechar esta conta, seria necessário que metade da população brasileira (105 milhões de habitantes) apostassem todos os anos R$ 1.319,00 nestes cassinos para gerar este faturamento bruto.

Modelo Singapura

O sucesso turístico de Singapura não pode ser creditado ao Marina Bay Sands e ao Resorts World Sentosa Casino conforme anunciado pelo senador. Infelizmente, o desconhecimento sobre o mercado mundial de jogos acaba seduzindo alguns parlamentares, que sempre citam Singapura, Japão e Macau como exemplos.

Os dois cassinos-resorts de Singapura não servem como modelo, pois o país tem uma população de 5,6 milhões de habitantes é o hub aéreo do Sudeste Asiático e tem a quarta mais rica do mundo, perdendo apenas para Qatar, Luxemburgo e Macau. Singapura e Macau recebem na grande maioria os jogadores chineses. Além disso, os cassinos destes dois destinos dependem exclusivamente dos jogadores VIPs, que são atraídos pelos ‘junkets’.

Modelo Japão

O senador Irajá cita o Japão como um case de sucesso, mas é oportuno registrar o que está acontecendo no país. Legalizados em dezembro de 2016, o Japão decidiu que serão implantados apenas três resorts integrados. As grandes operadoras dos Estados Unidos tiraram o pé do acelerador no desejo de investir na implantação de IRs no Japão com a pandemia. Las Vegas Sands, MGM, Wynn Resorts e Caesars Entertainment já desistiram de investir no país do sol nascente. As estimativas mais otimistas estão prevendo a implantação dos IRs no final desta década. Portanto, o Japão ainda não pode ser considerado um caso de sucesso. Pelo contrário, as grandes operadoras que lideraram o lobby pelo modelo dos resorts integrados desistiram de investir no país.

Modelo Las Vegas

Curiosamente, os grupos que defendem que o melhor para o Brasil é a legalização exclusiva dos IRs, nunca conseguiram emplacar este modelo de operação no estado de suas sedes. Em Las Vegas, Nevada, existem 1.626 locais de jogos, mas são apenas 61 cassinos em resorts integrados.

“Parlamentares brasileiros falam de resorts integrados com cassinos como o bom católico vê os ‘10 Mandamentos’, escolhem um ou dois para seguir, descartam oito, e diz que é religioso. Analisar modelo de Singapura sem falar da proximidade com a China, não é analisar Singapura. Falar de IR em Las Vegas deixando de fora as operações de jogos em bares, supermercados e postos de gasolina, não é usar Las Vegas como exemplo. O estado de Maryland, um dos últimos a legalizar cassinos nos Estados Unidos, convive tranquilamente com casas de bingos e jogos lotéricos. Todos os dados apontam que com a legalização dos cassinos, o faturamento dos bingos e das loterias aumentou. Uma grande pergunta: se somente jogo legalizado será em IR, a proposta do senador inclui fechar as Loterias Caixa? Singapura fez exatamente isto quando legalizou os resorts integrados com cassinos. Ou será que o senador vai deixar este mandamento fora de sua análise?”, questionou Marcus Fortunato, o CEO da empresa TicTabs com sede em Las Vegas e fornecedor de máquinas de jogos para vários cassinos e loterias nos Estados Unidos.

Geração de empregos

O argumento de forte geração de emprego nos IRs é incerto. O que se sabe é que a construção de um hotel de 300 apartamentos gera 1.500 empregos diretos. Portanto, é duvidoso afirmar que a legalização de 27 resorts integrados com cassinos pode gerar 200 mil empregos diretos. A estimativa representaria 7,4 mil empregos por cassinos. O Grupo MGM com 26 hotéis e cassinos emprega 74.500 ou cerca de 2,8 mil por unidade. O Mandalay Bay de Las Vegas e que pertence ao MGM tem apenas 1,5 mil empregados. O Caesars Entertainment tem 18,5 mil trabalhadores para todo o complexo.

Na verdade, a aprovação do Marco Regulatório dos Jogos, através de legalização de todas as modalidades: jogo online, bingo, cassinos e vídeo-jogos pode gerar 200 mil novos postos de trabalho, além da formalização de pelo menos 450 mil do jogo do bicho.

“O debate sobre a legalização dos jogos no Brasil está equivocado. Não haverá interessados em investir em alguns estados da Região Norte, Nordeste e Centro Oeste. O país deveria optar por um modelo híbrido de cassinos urbanos e resorts integrados. Um exemplo. Nos Estados Unidos a cidade de Oklahoma, com uma população de 650 mil habitantes, tem 134 cassinos com 71 mil máquinas e 4.100 assentos de bingos. O WinStar Casino em Oklahoma, um dos maiores dos Estados Unidos, tem 8,5 máquinas em 34 mil m² de área de jogo. Nevada tem 334 cassinos (3 milhões de habitantes), Califórnia tem 62 (39 milhões de habitantes), Colorado conta com 40 (5,7 milhões de habitantes), Dakota do Sul tem 39 (884 mil habitantes), Flórida com 35 (21 milhões de habitantes), Mississipi tem 35 (2,9 milhões), Arizona com 34 (7,2 milhões de habitantes)…por que o Brasil com 210 milhões de habitantes tem que ter apenas 27 cassinos?”, perguntou o especialista consultado pelo BNLData.

Reflexão

Ou seja, o Brasil não deve copiar modelos de jogos de outros países, temos que aprender com experiências exitosas e implantar um modelo que atenda a necessidade do mercado brasileiro. A proposta deve levar em consideração a grande oferta de jogos não regulados em operação no país para garantir os investimentos necessários e a geração de tributos e empregos, além de reduzir os jogos clandestinos.

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