BC contradiz o BC: diretor chama bets de “central” no endividamento, presidente não menciona o setor

O diretor de fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos, afirmou nesta terça-feira (1º), no Zetta Summit 2026, que é “indiscutível” que as bets são “elemento central” do endividamento das famílias brasileiras, chegando a classificar como “fake news” qualquer posição que negue essa contribuição. A declaração, no entanto, entra em rota de colisão direta com o diagnóstico apresentado publicamente pelo presidente da própria autarquia, Gabriel Galípolo, apenas oito dias antes.
Aquino palestrou durante o evento Zetta Summit 2026 – “Estabilidade, cidadania financeira e competitividade”, realizado em Brasília. O diretor do BC defendeu um olhar mais atento à saúde do crédito brasileiro e aos tomadores destes financiamentos, registra reportagem do VALOR.
O diagnóstico que já existe — e não menciona bets
Na abertura da Febraban Tech 2026, em 24 de agosto, Galípolo dedicou boa parte de sua fala a detalhar, com dados, as causas do superendividamento das famílias. Identificou três vetores: cartão de crédito rotativo, consignado privado e crédito pessoal sem garantia. Apostas esportivas não foram citadas uma única vez.
Os números que Galípolo apresentou são específicos e verificáveis: dos 96 milhões de usuários de cartão de crédito no país, 52,8 milhões carregam dívida no rotativo ou em parcelamentos com juros, com taxas mensais acima de 15%. O comprometimento médio da renda das famílias com faturas de cartão saltou de 38,5% para 54%. No consignado privado, a carteira mais que dobrou em pouco mais de um ano — de R$ 41 bilhões em março de 2025 para R$ 102 bilhões em maio de 2026, alta de 145% —, com inadimplência subindo de 5% para 6,7% e juros saltando de 40,9% para 57%. O crédito pessoal não consignado atingiu cerca de R$ 400 bilhões em saldo.
Para o presidente do BC, a lógica é direta: “o crédito que uma instituição financeira dá é a dívida que alguém tomou”. O problema está concentrado onde o crédito cresceu mais rápido e onde os juros são mais altos — não em um produto de entretenimento que não concede crédito a ninguém.
O consultor jurídico da ANJL e sócio-fundador da BetLaw, Bernardo Freire, comentou sobre a falta de responsabilidade do diretor do Banco Central em comentar uma questão séria sem evidências objetivas.
“Um diretor do Banco Central, especialmente ao se pronunciar publicamente sobre um setor regulado, deve pautar suas manifestações por dados oficiais e evidências objetivas, e não por opiniões pessoais — sobretudo quando estas contrariam as declarações do próprio presidente do Banco Central e os dados oficiais disponíveis sobre o setor de apostas”, comentou Freire.
Um problema de escala
Mesmo se houvesse algum grau de sobreposição entre apostadores e devedores — o que por si só não estabeleceria causalidade —, a proporção não sustenta o rótulo de “elemento central”. O GGR (receita bruta) de todo o mercado regulado de apostas somou R$ 37 bilhões em 2025. Isso já é receita líquida de prêmios pagos, não representa dinheiro “retirado” da economia, e é um fluxo anual de todo o setor. Comparado isoladamente ao saldo do crédito pessoal não consignado — cerca de R$ 400 bilhões, mais de dez vezes maior —, ou ao salto de R$ 61 bilhões só no consignado privado em pouco mais de um ano, a diferença de ordem de grandeza é evidente. Chamar de “elemento central” algo dez vezes menor que uma única linha de crédito, entre várias, é uma afirmação que os próprios números da instituição não sustentam.
A tendência vai na direção contrária
Há ainda um dado que enfraquece diretamente a tese de Aquino: o tíquete médio do apostador brasileiro está caindo, não subindo. Recuou de R$ 122,00 em 2025 para R$ 108,27 no primeiro semestre de 2026 — retração superior a 11%. Se as bets fossem, de fato, um motor crescente de endividamento, o padrão esperado seria o oposto: gasto médio subindo junto com o comprometimento de renda. Os dados de mercado mostram exatamente o inverso.
Confusão entre categorias
Há um erro conceitual de base na fala do diretor: bets não são instrumento de crédito. Elas não emprestam dinheiro, não cobram juros sobre saldo devedor e não geram uma dívida contratual como cartão, consignado ou empréstimo pessoal. É possível — e legítimo — discutir se apostadores usam renda que deveria quitar dívidas para apostar, ou se recorrem a crédito para financiar apostas. Mas isso é uma hipótese comportamental sobre alocação de renda, não equivale a dizer que as bets são “elemento central e indiscutível” do endividamento no mesmo sentido em que cartão rotativo e consignado são — que são, esses sim, os próprios instrumentos da dívida.
O ponto que mereceria mais atenção — e ficou perdido
Ironicamente, a parte mais consistente da fala de Aquino foi a menos repercutida: o questionamento sobre carteiras digitais que possam “burlar e abastecer créditos para as bets”. Esse é um tema real de supervisão — rastreabilidade de fluxos via Pix Crédito e transparência de CET —, mas é uma questão de meios de pagamento e prevenção a fraude, distinta de atribuir às apostas, como categoria, a causa do endividamento. Ao fundir os dois argumentos em uma única frase categórica, a fala perde precisão técnica exatamente no ponto em que mais precisaria dela.
A questão de fundo
Se a própria autoridade monetária, pela boca de seu presidente, apresentou um diagnóstico detalhado do endividamento das famílias sem mencionar bets, chamar o setor de “elemento central e indiscutível” oito dias depois — no mesmo órgão, sob a mesma autarquia — não é apenas uma opinião divergente. É uma contradição interna que caberia à instituição esclarecer: qual das duas leituras representa a posição do Banco Central?


