A passo de cágado.
Poucos brasileiros já ouviram falar na US Securities Exchange Comission, que atende pela sigla US-SEC, tem uma águia em sua logomarca que vem a ser a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) dos EUA. Trata-se de um órgão independente que regula e fiscaliza as grandes empresas com atuação nas bolsas norte-americanas. A US-SEC enviou uma notificação para a matriz da multinacional Gtech Holdings Corp, em New York, informando que abriu investigação contra a empresa por envolvimento em corrupção no Brasil.A US-SEC já pediu alguns documentos à Gtech e informou que a investigação aberta se apóia em relatórios e matérias jornalísticas publicadas no Brasil e nos EUA. Não desceu a detalhes, mas soa óbvio que a investigação diz respeito ao caso Waldomiro, o escândalo que brotou em fevereiro deste ano e no qual, até o momento, salvaram-se todos, menos a Gtech. Para clarear a questão, vou fazer um pequeno histórico do caso.Em fevereiro, descobriu-se uma fita de vídeo que mostrava o principal assessor do principal ministro do governo pedindo propina para futuros candidatos e para si ao bicheiro Carlinhos Cachoeira. A cena situava-se entre o dramático e o patético, entre o devastador e o mais deslavado cinismo. Dela salvaram-se todos, menos a multinacional Gtech, que, aliás, não aparecia no filme.O principal ministro do governo, de quem Waldomiro era assessor e amigo, não só escapou ileso como também foi homenageado com desagravos públicos, sugerindo a injustiça de que fora vítima, a despeito de, também ser chefe de Waldomiro, ser também seu amigo declarado de muitos anos, tendo os dois morado juntos, dividindo o mesmo apartamento de solteiros. Só demitiu o novel Waldomiro a pedidos, o que, no caso, correspondeu a uma saída honrosa do importante cargo que ocupava na Casa Civil da Presidência da República.De lá para cá, Waldomiro vive uma vida tranqüila em Brasília. Apesar de não ter emprego privado ou público, não lhe tem faltado recursos, conforto e abrigo. Vive num apartamento amplo, zanza pela capital numa caminhonete caríssima, que bebe uma gasolina braba. Para muitos telefonemas, prefere um telefone público, o que, no mínimo, soa estranho. Não lhe tem faltado dinheiro para caros advogados, os quais, aliás, têm honrado a remuneração, livrando-o de perturbações.Carlinhos Cachoeira também se deu bem. Quando tentaram virar o jogo e lançar-lhe a culpa, ele pulou fora da berlinda com rara habilidade e saiu do sufoco. Quanto à Gtech, pagou todos os patos. Tinha uma relação lateral com Waldomiro, mas foi repentinamente lançada no centro da arena, como responsável por todas as culpas. De repente, não mais que de repente, a investigação de seu contrato com a Caixa Econômica encobriu o escândalo Waldomiro.Ação do escândalo Waldomiro andou cinco meses a passos de cágado velho. Não atou nem desatou, não procurou e também não achou nada. Nem a Polícia Federal, nem o Ministério Público, ninguém soube responder por que não andava, ninguém fez andar. Recentemente um juiz quebrou os sigilos bancário, fiscal e telefônico de Waldomiro, mas nenhuma notícia nova emergiu dos exames das contas escancaradas até agora.Só a multinacional Gtech, maior empresa mundial em sistemas para loterias, continuou pagando todas as penas e agora vai pagar muito mais, porque a investigação norte-americana terá definição rápida e eficaz. Os dirigentes da Gtech devem estar se perguntando por que só ela. Talvez porque não tenha sido esperta o suficiente; em vez de contratar consultores e advogados caríssimos, bastaria ter perguntado a Waldomiro como é que se faz para ficar impune. Ele sabe, e sabe muito bem.(*) Mônica Waldvogel é jornalista em São Paulo.


