Bancos lançam raspadinha na rede para vender título de capitalização.
Para incentivar as vendas de títulos de capitalização – papéis que permitem ao consumidor concorrer a prêmios -, instituições financeiras estão lançando jogos pela internet que se assemelham até a raspadinha.
O Unibanco colocou na rede o e-Plin, que permite ao dono de um título de capitalização, que custa R$ 10 (pagamento único), concorrer a prêmios instantâneos e também pela loteria federal.
O apelo para participar é feito por meio de animação com coelhinhos em quatro cartolas. Se os animais aparecerem com as meias da mesma cor, o cliente ganha R$ 5.000. Diferentes combinações de cores dão direito a valores menores. Correntistas ou não podem arriscar a sorte.
O banco Real, do grupo ABN Amro Bank, colocou na internet o e-cap$orte. Em vez de coelhinhos, a instituição atrai o cliente para a compra de títulos de capitalização com uma raspadinha on-line. Cada título custa R$ 1. É preciso adquirir no mínimo cinco títulos.
Ao clicar na raspadinha, o cliente ganha prêmios de acordo com o número de cifrões que aparecer na tela. Um cifrão dá direito a um prêmio no valor de um título (R$ 1). Dois cifrões, dez vezes o valor. Três, cem vezes e quatro, mil vezes. Os títulos de capitalização do e-cap$orte também são premiados pela loteria federal.
“Vamos buscar parcerias com outros sites para colocar o produto. Hoje, é só para clientes. O e-cap$orte é uma forma de poupança”, diz Patrícia Feltrin, diretora de capitalização do Real.
O Santander vai lançar o seu jogo on-line em breve. O produto está em fase de elaboração. Uma das idéias é criar títulos de capitalização de R$ 1 e dar prêmios instantâneos de R$ 2.000. “Vai funcionar como se fosse uma raspadinha”, diz Fernando Grossi, diretor de seguros do banco.
A Horizonte Capitalização, que já teve seu jogo on-line e o retirou da rede há cerca de um ano por causa da pouca procura, está reformulando a idéia para voltar a participar dos jogos virtuais.
Luiz Felipe Denucci, presidente da empresa, informa que os títulos que darão prêmios pela internet deverão ser de baixo valor e de pagamento mensal, que mais se assemelham à poupança.
Quem vende os títulos não gosta de comparar esse produto a jogos. No caso dos jogos, não há devolução de dinheiro em caso de a pessoa não ser premiada.
O Unibanco lucrou R$ 53,7 milhões em 2001 com títulos de capitalização (on-line e tradicional). O grupo ABN, R$ 23 milhões.
Para especialistas, regras confundem consumidor.
Especialistas do setor financeiro dizem que as regras do mercado de títulos de capitalização ainda confundem o consumidor. Quem compra um título não pode mexer no dinheiro pelo prazo mínimo de um ano. Se resgatar antes, receberá parte do valor -o desconto varia entre os bancos.
O cliente desatento não percebe que só parte do dinheiro gasto ao comprar um título é que vai de fato ser corrigido. A outra parte paga despesas administrativas e prêmios, além de bancar o lucro de quem vende os títulos. Pior: a correção desse dinheiro, na maioria dos casos, não passa de 3% ao ano (mais TR) -metade da remuneração da poupança.
“Não é desonestidade não devolver todo o dinheiro ao cliente. Quem compra um bilhete de loteria e não é premiado e não recebe o dinheiro de volta. O título devolve parte do dinheiro”, diz José Luiz Valentim, superintendente da Brasilcap, do Banco do Brasil.
“Isso é um roubo porque as empresas e os bancos, na maioria dos casos, ficam com metade do seu dinheiro, lucram aplicando em renda fixa e só devolvem parte do valor. É um absurdo a Susep, que regula o setor, autorizar isso”, diz William Eid Jr., professor de finanças pessoais da FGV-SP.
As chances de ganhar prêmios, diz, são pequenas. “No caso do e-Plin, se o cliente jogar R$ 10, o título distribui 5,7% em prêmios instantâneos. Outros 12% são distribuídos nos sorteios mensais pela loteria. A chance de ganhar o prêmio máximo de R$ 20 mil pela loteria é de uma em 16.666 vezes.”
O matemático José Dutra Sobrinho diz que, no caso do e-cap$orte, a probabilidade de ganhar qualquer prêmio (de R$ 1 a R$ 1.000), no caso do on-line, é de uma a cada 28,6 vezes. A chance de ganhar qualquer prêmio na federal é de uma a cada 2,5 vezes.
“Mas a chance de ganhar o prêmio máximo no on-line, no valor de R$ 1.000, é de uma a cada 200 mil vezes. Já na loteria federal a chance de ganhar primeiro prêmio [em uma série de 75 mil números”, que pode chegar a R$ 300 mil, é de uma em 75 mil.”(CR e FF)
Folha Online – SP – Cláudia Rolli e Fátima Fernandes


