Olha o bingo aí de novo.

Opinião I 17.05.04

Por: sync

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Outro dia fiz 40 anos. No dia seguinte já não conseguia mais enxergar de perto. Nunca pensei que a vista cansada chegasse assim, com hora marcada. Enrolei alguns meses, até que, na quarta-feira passada, amanheci no oculista. Quando o doutor deu o veredicto – "1 grau em cada olho" – era como se dissesse: "Bem-vindo à meia-idade".
Saí do consultório direto para a ótica, onde encomendei o Varilux (ou as "lentes multifocais", conforme o jargão politicamente correto do oculista). Passei o resto do dia tentando me adaptar à nova realidade. Prometi a mim mesmo parar de ler jornais na frente de estranhos, e imaginei que poderia sistematicamente dispensar o cardápio em restaurantes, dizendo apenas: "O de sempre, por favor".
À noitinha, estava quase chegando em casa, quando, de repente, uma luz se acendeu. Uma, não: várias luzes. Coloridas. Frenéticas. Dançantes. Era o néon do bingo em frente ao meu prédio, que só estava esperando o fim da votação no Congresso para voltar a funcionar. Confesso que aquele festival de luzes me animou. Sim, eu estava vendo o bingo em frente de casa com outros olhos. Era a hipermetropia, creio.
Não, não precisa me lembrar: eu escrevi, sim, uma crônica dando vivas à proibição dos bingos. Eu me queixei longamente, aqui neste mesmo espaço, da infelicidade que é ter uma fachada ululante de néon no campo de visão da própria varanda. Mas eis que, de súbito, tudo isso me pareceu bastante longínquo – e, diante dos últimos acontecimentos, absolutamente irrelevante.
Só para lembrar. A proibição dos bingos foi antes do bombeiro da Luma, antes do comercial do Zeca Pagodinho, antes da Maria Clara sair no tapa com a Laura. Foi antes do Abril Vermelho do MST, antes da batalha da Rocinha, antes da reunião de 48 horas para deliberar sobre o "aumento" do salário mínimo. Pense bem: sob o impacto dessas fotos que provam que, de fato, os americanos estão de sacanagem com os iraquianos, quem é que vai perder tempo discutindo se pode ou não pode jogar no bingo?
Agora eu sei: para uma pessoa na flor da meia-idade, a existência de um bingo na porta de casa é algo reconfortante. Se você tem a vista cansada, ter um bingo na porta equivale a morar em frente a um parque de diversões.
Mas não é só isso. A verdade é que esses três meses de proibição fizeram com que centenas de milhares de brasileiros – pessoas que jamais consideraram a hipótese de pôr os pés num bingo – desenvolvessem uma vontade avassaladora de fazer sua fezinha.
Sem falar nas conotações políticas que passaram a revestir qualquer ida ao bingo. Jogar no bingo, hoje, constitui praticamente um ato de desobediência civil. Os salões de bingo estão para a oposição ao governo do PT assim como as praças públicas estavam para as Diretas Já. Velhinhas! Unidas! Jamais serão vencidas!
Foi então que, imbuído de vista cansada, espírito cívico e vontade de testar minha sorte de principiante, acabei de jantar, desci pelo elevador, atravessei a rua e tentei empurrar a porta de entrada do bingo. Sem sucesso. Só então ouvi o leão-de-chácara explicar: "Ainda tão arrumando. Abre daqui a umas duas horas".
Pena. Eram 10 da noite e eu ainda tinha esta crônica para escrever. Mas deixa só o meu Varilux ficar pronto, que eu volto.

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