Por que regulamentar os jogos.

Opinião I 30.04.04

Por: sync

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David Stival*
Permanece a polêmica da MP do governo Lula sobre os bingos e as máquinas caça-níqueis e se esta medida deve ser estendida de forma permanente ou se deveria ser regulamentada pelo Congresso Nacional. Os que defendem a proibição e a não-regulamentação argumentam que tais jogos têm se prestado para a prática da contravenção, do crime organizado, da corrupção etc. E que, ao estatizar, tais crimes viriam para a esfera do Estado, o que seria ainda mais nefasto. Mesmo sem negar a ilicitude de tais comportamentos de parte dos que se envolvem com a "jogatina" e com práticas em alguns casos criminosas, quero expressar minha opinião pela regulamentação e controle por parte do Estado desses jogos e outros, como o jogo do bicho, por entender que este seria o melhor caminho. Sem falar no aspecto social, de emprego e renda, que essas atividades exercem. Por que penso assim? Porque o jogo é uma atividade típica do homem. O homem inventa jogos e diverte-se como nenhum animal sabe fazer.
O jogo assume as formas mais variadas e, por isso, é difícil dar uma definição que o circunscreva exatamente de modo que não seja confundido com qualquer outra atividade. O jogo é um desenvolvimento de atividades com vistas à distração, ao divertimento, à satisfação e à realização de si mesmo. Quem joga não faz somente alguma coisa e já desse modo realiza necessariamente a si mesmo, mas joga de modo a dar o melhor de si.
Cada um escolhe o jogo no qual sabe poder afirmar-se melhor, colocando-se mais em luz suas próprias habilidades. Por esse motivo que o jogo absorve e empenha tanto. O jogo é sempre um desafio aos outros e a si mesmo. Por isso, sempre que se joga, busca-se a vitória. Nisto está implícita uma outra qualidade do jogo: ele é fim de si mesmo e não um meio para a consecução de outros objetivos. Se a limitação humana de sua natureza imperfeita o leva para isso que não o divertimento, o poder público, através dos mecanismos do Estado, tem que intervir, controlar.
Não se joga só para ganhar dinheiro, honras, encargos. Jogamos para dar expressão a nossa liberdade.
O fim do jogo é o homem, e o seu objetivo próprio é o divertimento e nada mais que o divertimento. E, por isso o faz distinguir de qualquer outra atividade.
O divertimento, como o lúdico, faz parte da natureza humana, e tudo o que é da natureza humana não se resolve proibindo, impedindo, porque ela se vinga das mais variadas formas. Achar que proibindo o jogo ele vai deixar de existir, e como conseqüência também o crime, é um equívoco. Surgirão outras formas de jogo ao arrepio da lei e fora de controle, ampliando ainda mais as possibilidades do crime e da extorsão.
Portanto, é preciso que o poder público crie os melhores instrumentos de controle e regulamentação. Se o jogo nasceu com o homem e só acabará quando a humanidade acabar, regulamente-se, controle-se para que esta atividade lúdica, de divertimento, sirva somente para este tipo de realização humana. Se a estrutura atual da sociedade não nos consente realizar o ideal desse objetivo, não será proibindo que se resolverão os problemas que dele derivam. A MP do governo, se conjunturalmente se justificou, estruturalmente é um equívoco. No jogo se manifesta claramente a busca da superação e da evasão de tudo aquilo que a vida cotidiana impõe ao homem, de modo pesado, fatigante, opressivo: é uma tentativa de libertar-se dos vínculos sociais, espaciais, temporais que caracterizam a vida diária. O jogo é uma antecipação do reino da liberdade e da alegria, da serenidade e da felicidade subjacente aos sonhos de todos os homens.
É um contra-senso proibi-lo. Se o governo decidir por isso, vai dar "um tiro no pé".

(*) David Stival é Presidente PT/RS e professor de antropologia cultural – Jornal Zero Hora (RS)

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